Resenha: Vivian contra o apocalipse, Katie Coyle

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Título: Vivian contra o apocalipse
Título original: Vivian versus the apocalypse
Autora: Katie Coyle
Editora: Ediouro Publicações (Selo Agir Now)
Páginas: 240
Lançamento: 2015
Nota: ★★★★★

Leia o primeiro capítulo aqui!
 

Vivian Apple tem 17 anos e mal pode esperar pelo fatídico “Arrebatamento” – ou melhor, mal pode esperar para que ele não aconteça. Seus devotos pais foram escravizados pela Igreja faz tempo demais, e ela está ansiosa para que voltem ao normal. O problema é que, quando Vivian chega em casa no dia seguinte ao suposto Arrebatamento, seus pais sumiram e tudo o que restou foram dois buracos no teto.
Vivian está determinada a seguir vivendo normalmente, mas quando começa a suspeitar que seus pais ainda podem estar vivos, ela percebe que precisa descobrir a verdade. Junto com Harp, sua melhor amiga, Peter, um garoto misterioso que tem os olhos mais azuis do mundo e informações sobre o verdadeiro paradeiros dos seguidores da Igreja (ou é o que ele diz), e Edie, uma Crente que foi “deixada para trás”, os quatro embarcam em uma road trip pelos Estados Unidos. Mas, depois de atravessar quilômetros de eventos climáticos bizarros, gangues de Crentes vingativos e um estranho grupo de adolescentes auto-intitulados os “Novos Órfãos”, Viv logo vai perceber que o Arrebatamento foi só o começo.

Enredo

“Vivian contra o Apocalipse” relata a história de uma sociedade comandada e regrada pela religião e pela Igreja Americana, que tem como seu líder Beaton Frick. Os chamados Crentes são adeptos inquestionáveis da igreja e seguem rigorosamente suas instruções e mandamentos. No começo ninguém deu ouvidos ao pastor com suas pregações supostamente malucas, mas quando a América do Norte começou a sofrer os efeitos do aquecimento global, tsunamis e ataques terroristas, grande parcela da população se converteu por acreditar que aqueles eram sinais de que o fim do mundo se aproximava e que Beaton Frick estava certo.

A narração, em primeira pessoa, é feita pela protagonista, Vivian Apple, uma adolescente comum de 17 anos, bem criada e educada, sempre obediente e prestativa cujos pais se converteram enquanto a jovem cursava o ensino médio.  Vivian se vê dividida entre tentar continuar agradando os pais e se converter também e começar a finalmente ser a dona de suas próprias ações.

Porque não. Porque, se meus pais estiverem certos, o mundo vai acabar antes que eu tenha feito qualquer coisa que valha a pena. Antes de me tornar uma pessoa que valha a pena conhecer. Se o mundo acabar, eu acabo. E parece que mal comecei.

A igreja Americana prega uma sociedade casta, com mulheres submissas e fiéis subordinados, além de condenar a homossexualidade, o feminismo e outras supostas ameaças à integridade da família americana.

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Frick previu o Arrebatamento e afirmou que somente os Crentes da Igreja Americana seriam salvos. Na data em que o suposto Arrebatamento aconteceria, Vivian estava em uma festa, que sua melhor amiga Harp organizou, para zombar a fatídica previsão. Lá Vivian conhece Peter, um garoto um pouco misterioso que nunca havia encontrado pela cidade antes. Eles trocam algumas palavras, mas quando Peter a questiona sobre o que ela realmente acha da situação toda, Viv se acovarda e lhe dá uma resposta genérica, sem dizer o que realmente pensa sobre o Arrebatamento, sobre como isso afetou sua vida e de seus pais e sobre como não vê a hora dessa tensão toda passar para poder recuperar sua vida. Peter, desapontado, encerra a conversa de maneira cordial e desaparece de vista.

Após a festa, Vivian retorna para sua casa, um pouco aliviada com o percurso aparentando estar normal e não haver indícios aparentes de que o Arrebatamento possa ter, de fato, acontecido. Viv só quer chegar a casa, se desculpar com seus pais por ter ido a uma festa escondida e voltar a viver sua rotina de antes do Frick e a Igreja Americana aparecerem. Na casa, estranhamente silenciosa, Vivian não encontra seus pais, que não atendem os chamados da garota e nem os celulares. Ao chegar ao quarto deles, o cômodo está vazio e há dois buracos no teto.

Juro que não senti nada até olhar por acaso para o teto rebaixado e ver dois buracos idênticos, com bordas ásperas, grandes o suficiente para seus corpos magros passarem, como portais perfeitos para a vastidão do céu nublado. Vejo o sol jorrando como lanternas ao lado da cama, iluminando dois cones de poeira dourada, e é aí que sinto algo se partir dentro de mim. Algo importante.

Algum tempo depois, Harp; seu irmão Raj; o namorado de Raj, Dylan e a irmãzinha de Dylan, Molly se juntam a Vivian em sua casa. Os pais de Harp também desapareceram e agora os noticiários estão relatando o sumiço de milhares de Crentes pelo país. O desenrolar da história mostra o que Vivian, Harp e seus amigos farão para sobreviver nesse novo mundo apocalíptico e as respostas que a protagonista precisa encontrar para entender tudo o que está acontecendo com o mundo, com as pessoas e principalmente com seus pais.

O livro engata quando Harp, Vivian e outros embarcam em uma viagem de carro atravessando o país em busca dessas respostas. Mas antes disso muita coisa acontece: perdas, revelações, alianças e promessas. Um livro sobre descobrimentos e amadurecimento, mas, sobretudo sobre a formação da personalidade e caráter de uma adolescente.

Personagens

No livro os personagens são bem construídos, são reais, complexos, com medos, inseguranças e falhas reais, as características e informações passadas sobre cada um deles são transmitidas no momento certo, nada antes nem depois do que o leitor precisa saber. Não é difícil se identificar e apegar a pelo menos um deles.

A protagonista, Vivian Apple é obediente, educada e boa moça, mas isso não quer dizer que seja submissa ou manipulável, a garota sabe pensar. Apesar disso, ela demora a se posicionar, a assumir seu papel de personagem principal em sua própria história. A Vivian heroína não nasce do final de um capítulo para o outro, essa identidade é construída aos poucos.

… digo a mim mesma: Deus. Então me corrijo, por motivos óbvios. Universo, penso. Faça com que eu seja menos dócil, menos medrosa. Universo, me transforme na heroína da minha própria história.

Sua amiga Harp é extrovertida, popular, decidida e divertida. Elas se tornaram melhores amigas depois que a última garota do grupo de amigas de Vivian se converteu. Harp sempre zombou do Arrebatamento, Frick, a Igreja Americana e tudo ligado a eles e é a parceira ideal para uma viagem em um mundo hostil.

Frick é um Crente convicto e acredita piamente que foi o escolhido de deus para salvar os merecedores do reino dos céus. Fundou a Igreja Americana depois que recebeu a visita de três supostos anjos, que passaram a lhe dar coordenadas e instruções de como manter a igreja e se comportar dali em diante. A igreja em sim é uma entidade que merece uma frase ou duas. Ela prega o capitalismo e a completa servidão dos Crentes para si. A Igreja Americana ainda condena a homossexualidade, o sexo antes do casamento, e outras tentações que possam desencaminhar um Crente e sua família da salvação.

Os pais de Vivian, Mara Apple e Edward Ned Apple, são Crentes convertidos e sempre tentaram levar a garota para a Igreja também. No começo do livro, temos a impressão de que, tanto os pais dela quanto todos os outros Crentes sofreram uma espécie de lavagem cerebral, que estão sendo totalmente manipulados e não podem estar agindo ou falando daquela maneira de verdade. Os pais Crentes de todo país adotaram as posturas pregadas pela igreja e em nenhum momento avaliaram tais comportamentos ou o que poderia ou não ser melhor para seus filhos.

Por fim, temos Peter, um garoto misterioso que Vivian Apple conheceu na festa do começo da história, cuja protagonista acredita que nunca mais vá encontrar, mas que é reinserido na trama posteriormente e possui um papel fundamental para a continuação da história.

Minha opinião

Sou suspeita para falar de “Vivian contra o apocalipse” pois esse foi meu livro favorito de 2014, e talvez o favorito de toda a vida. Comprei a versão original no ebay no final do ano passado, por recomendação da Sanne (booksandquills – veja o vídeo aqui!) e AMEI! Amei o fato de a autora ter abordado o tema do fanatismo religioso de uma maneira jovem, elaborada e atual. Se existe um tema que sempre me atrairá é esse. E road trips! Então imagina um livro que junta os dois?! Achei o livro genial, a autora foi fantástica, sobe medir suas palavras e transmitir sua mensagem.

O livro tem um ou dois plot twists ao final de cada parte que me deixaram boquiaberta. Realmente não achei um ponto negativo no livro para poder reclamar. O tema “apocalipse” já está um tanto quando batido no mercado editorial atualmente, mas nesse livro ele ganha uma roupagem completamente diferente do que estamos acostumados.

Considerações finais

Kalie Coyle foi minuciosa e se atentou ao máximo para não ofender nenhuma religião em particular. Comprei o livro ano passado porque tinha me interessado muito pela sinopse e pelo tema e não acreditei que nenhuma editora brasileira teria coragem de trazê-lo para cá. Ainda bem que estava enganada e a Agir Now (novo selo da Ediouro Publicações) trouxe o livro para nós. Achei a proposta da editora fantástica e estou ansiosa pelos outros lançamentos.

Comparações

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A versão nacional está muito melhor que a original, em minha opinião. Talvez porque o formato paperback de fora seja bem simples e frágil (porém mais barato!). Não tenho nenhuma reclamação sobre a diagramação, achei até melhor que a original. A revisão deixou passar algumas coisinhas, mas isso não afeta o livro em nenhum aspecto. A tradução me incomodou um pouco, talvez porque estava muito ansiosa pelo livro e esperava muito dele, mas ainda assim, não prejudica a história.

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Sei que estamos todos meio que tentando manter as aparências uns para os outros. Tentando dizer algo tipo: “Nossa comunidade ficará mais forte após essa perda” ou “a vida continua depois da tragédia”. Isso não convence ninguém. De certa forma, só piora as coisas.

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Sobre a autora

katieKatie Coyle cresceu em uma cidadezinha suburbana de Nova Jersey. A primeira história que escreveu foi sobre uma menina com um golfinho de estimação – em algum momento o golfinho virou um cachorro e a narrativa em terceira pessoa passou para a primeira, sem a menor cerimônia. O livro nunca foi terminado. Desde então, porém, Katie passou incontáveis horas inventando histórias sobre as coisas incríveis e estranhas que acontecem com garotas durante a adolescência. Ela faz mestrado na Universidade de Pittsburgh e passa o tempo livre comprando livros de que não precisa e chorando com séries de ficção científica na tevê. A Agir Now entrevistou a autora, a entrevista está aqui! A Katie é super fofa e tem twitter e tumblr!

Compre o livro: Amazon | Submarino | Saraiva | Livraria Cultura

 

Extras

O segundo livro chama “Vivian versus America”, será que a Agir Now vai trazer pra cá também?
 
Update: Sim! Eles vão trazer!! YAY! Conversei com a equipe da Agir Now (que por sinal, são super fofos) e eles me informaram que Vivian versus America vai ser lançado aqui no Brasil sim! Por enquanto ainda não tem previsão de lançamento.

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No reino unido, os agentes de Katie sugeriram que ela alterasse o título da série devido ao grande número de livros no mercado com o termo ‘apocalipse’ no nome. Os títulos lá são ‘Vivian Apple at the end of the world’ e ‘Vivian Apple needs a miracle’. As capas são essas:

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Escutem, o mundo não está acabando. Não vai acabar durante a vida de vocês, ou da de seus filhos, ou da de seus netos…Mas talvez acabe durante a vida dos seus bisnetos, pra ser sincera. E é culpa nossa. Não levamos a vida de forma sustentável. Não estou falando apenas de reciclar e de fechar a torneira enquanto escovamos os dentes. Estou falando de como tratamos uns aos outros. Como decidimos que somente algumas vidas são importantes, que apenas poucos merecem ser tratados como humanos. Não há vida sem valor na Terra. E isso inclui aqueles de nós que foram Deixados Para Trás. Não sei aonde foi toda aquela gente. Talvez tenha mesmo ido para alguma espécie de paraíso cristão. O que estou dizendo é que nós também somos boas pessoas. Nossa vida tem valor. Eu acredito em cada um de vocês. E o que não quero é que fiquem deitados esperando o fim chegar. Não quero que vocês deixem o resto de suas vidas de lado só porque o Deus de outra pessoa não tentou salvar vocês. Porque, querem saber? Se ele não tentou salvar vocês, não era um bom Deus para começo de conversa.

Juliane Oliveira

Gosto de distopias memoráveis e contemporâneos que não sejam desnecessariamente tristes. Não sou muito fã de dias chuvosos ou frios. Apaixonada por séries, livros, filmes e pets no geral.

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Discussion about this post

  1. Karoline disse:

    Caramba, fiquei morrendo de vontade de ler agora

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