Resenha: Dois Irmãos, Milton Hatoum

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Título: Dois Irmãos
Autora: Milton Hatoum
Editora: Companhia de Bolso
Páginas: 200
Lançamento: 2006
Nota: ★★★★★

 
 
 

Sinopse

“Dois Irmãos” é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. É a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar. Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance.

Enredo

E se uma mãe tiver de fato um filho favorito? E se esse amor desmedido influenciar no caminho de toda uma família?

Em Dois Irmãos seguimos a vida de Halim e Zana, árabes que vieram para Manaus, tendo seu casamento arranjado e consumado rapidamente. Halim viu Zana, ainda aos 15 anos, no restaurante de seu Galin, pai da moça, a paixão foi instantânea. E o que ele mais gostava de fazer era celebrar essa paixão na rede, ou em qualquer outro lugar que achassem.

Para Halim, a vida devia ser simples assim: uma garrafa de arak, jogar gamão com os amigos, vender suas mercadorias muitas vezes em troca de proza, e o amor de sua mulher. Suas prioridades mudam, quando o sogro morre e Zana coloca na cabeça que apenas três filhos são o suficiente para ela.

Enfeitiçado, logo de primeira, os gêmeos Omar e Yaqub vem ao mundo. O primeiro quase morreu, de tão fraquinho que veio, tendo toda a atenção e cuidado da mãe. Já o segundo ficou a cargo de Domingas, a indiazinha que há muito Halim e Zana pegaram para criar e ajudar no zelo da casa. Rânia veio depois, raspando o tacho e arrematando os desejos de Zana.

E é assim, como ele mesmo diz, que a rede de sua vida foi desarmada de vez. A personalidade dos três rebentos não poderia ser mais diversa, e a rivalidade principal fica por conta de Omar e Yaqub.

Omar sempre foi mais mimado, a fraqueza que teve quando nascer serviu apenas para fortalecer o ímpeto de viver. Foi crescendo cada vez mais inconsequente, sempre ciente da certeza de que sua mãe estaria sempre pelas beiradas para socorrer ao menor sinal. Tendo essa certeza, ele sempre foi mais despachado, mais corajoso com relação a vida. E bastante enciumado.

Yaqub fica na beira com Domingas, que foi grande responsável por sua formação. É o caçula e graças a um desentendimento com o irmão, passou alguns anos em uma aldeia no sul do Líbano. Nunca entendeu porque ele, e não Omar, teve essa “punição”. Voltou aos 18 anos, taciturno, tímido e esquecido da língua que lhe era tão familiar. Sofreu por se sentir atrasado na classe, sofreu por ter as palavras de sua língua materna roubadas da memória, sofreu pelo que passou e nunca compartilhou com ninguém, mas disso tudo tirou as forças para crescer e se tornar o “doutor engenheiro” que a mãe passou a se gabar tanto.

A história não nos é contada de forma linear. São memórias que o narrador captura ou vivencia. Muito do que é dito foi visto por ele, mas por ser alguém que permeia pela vida da família, acaba por ouvir um pouco de tudo. O fato importante é a confiabilidade que esse narrador-personagem tem de todos da família e também é bom ressaltar que apesar de os fatos estarem sempre a volta de algum dos gêmeos, de alguma forma vamos conhecendo mais sobre cada um dos personagens.
A história se passa em Manaus, a linguagem usada tem seus maneirismos, a linguagem típica, a apresentação de costumes, fauna e flora, os lugares, tudo. Em contrapartida, também temos um pouco da cultura árabe, já que a família vem de lá. Percebemos algumas características bastante vivas nas passagens e a narrativa deixa isso tudo muito mais vivo.

Acompanhar a vida dessas pessoas pelas ruas de Manaus nos traz vários tipos de mapas. Temos o mapa geográfico, pelas descrições preciosas que Milton Hatoum aborda. Temos mapa histórico, acompanhando o desenvolvimento da cidade a volta de todos, passando pelo seu tempo áureo, o pós-guerra, o golpe militar e o terror palpável e a modernidade que alcança ali. Também temos mapas emocionais, que transbordam sentimentos múltiplos e que se entrelaçam como em uma dança de fitas.

Minha opinião

Ás vezes tenho uma dificuldade enorme de me inserir em uma história, de me sentir parte dela. Só lá pela metade do livro me vejo no centro de tudo. Achei que seria o mesmo com esse livro, por ter a linguagem um pouco mais exigente. Como estava enganada.

Milton Hatoum escreve de maneira tão gostosa, o sotaque que ele impõe aos personagens é tão natural e agradável. As paisagens que pinta são tão belas e o enredo que discorre te prende de forma que você quer chegar ao final logo e ao mesmo tempo não quer. Você está preso, mas não quer se libertar.

Há diversos temas tratados no decorrer da história, alguns são tão sutis que você precisa refletir para saber se é mesmo aquilo. Ele brinca com as nuances, mas ao mesmo tempo trata tudo com a seriedade que exige, é perceptível as consequências que os atos tem, mesmo que tardem a vir.

Considerações finais

Dizer que Milton Hatoum escreve bem é desnecessário. Eu sei que só li uma obra, mas sentir o gosto de suas palavras dá a vontade necessária de quero mais .
O livro está mais do que recomendado: por motivos de ser ótimo, ser nacional, e ser extremamente rico e bem construído.

Autor

milton

Descendente de libaneses, ensinou literatura na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e na Universidade da Califórnia em Berkeley. Escreveu Cinco obras: Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos, Cinzas do Norte (esse último vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura e todos os três primeiros ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance), Órfãos do Eldorado e A Cidade Ilhada. Seus livros já venderam mais de 200 mil exemplares no Brasil e foram traduzidos em oito países, incluindo Itália, Estados Unidos, França e Espanha.

Hatoum é conhecido por misturar experiência e lembranças pessoais com o contexto sócio-cultural da Amazônia e do Oriente.

 

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Extra

Agora vamos falar sobre um lançamento recente da Quadrinhos na Cia., o selo responsável por quadrinhos da Companhia das Letras. Em março de 2015 chegou em livrarias a adaptação de Fábio Moon e Gabriel Bá para o livro de Hatoum. Até aquele momento, eu pouco sabia da obra, mas fiquei imensamente interessada pela sinopse.

Conheci o trabalho dos dois, que também são gêmeos, em Daytripper, lançado aqui em 2011 pela Panini Books. Eles são bastante conhecidos também por sua revista independente “10 pãezinhos” e a adaptação da obra “O Alienista” (livro de Machado de Assis), ganhando prêmios por suas obras tanto aqui quanto lá fora.

Eles conseguiram capturar a essência da história, dos personagens, do cenário. Senti o tom de Milton e a presença marcante do trabalho de Moon e Bá. Como li um seguido do outro, a história ainda estava fresca na minha memória, mas creio que a escolha de tudo retratado e representado no quadrinho foi a melhor. Tudo que é essencial, inclusive o clima de lembranças e histórias, é passado nessa obra de arte sequencial tão primorosa.

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Nas fotos acima podemos ver o movimento que os quadrinhos têm, as onomatopéias que apenas completam o que o desenho representa. Moon e Bá trazem a medida certa de detalhamento e o melhor uso de um traço simples que se integram na página. Manaus foi belamente representada, mesmo com a ausência de cor, as hachuras, o jogo de luz e sombra e a riqueza do desenho, tudo isso junto faz com que você termine visualmente satisfeito com o trabalho proposto.

 

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Gabriel Bá e Fábio Moon são quadrinistas brasileiros, nascidos no estado de São Paulo, sendo dois dos mais premiados quadrinistas brasileiros da atualidade. Juntos já publicaram trabalhos nos EUA, Itália e Espanha. Foram os primeiros brasileiros a ganharem o Prêmio Eisner de quadrinhos. Segue o trabalho deles no site.

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