Resenha: Fragmentados, Neal Shusterman

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Título: Fragmentados
Título original: Unwind (2007)
Autora: Neal Shusterman
Editora: Novo Conceito
Páginas: 320
Lançamento: 2015
Nota: ★★★★★❤

Leia um trecho aqui.
 

Sinopse

Em uma sociedade em que os jovens rejeitados são destinados a terem seus corpos reduzidos a pedaços, três fugitivos lutam contra o sistema que os fragmentaria .

Unidos pelo acaso e pelo desespero, esses improváveis companheiros fazem uma alucinante viagem pelo país, conscientes de que suas vidas estão em jogo. Se conseguirem sobreviver até completarem 18 anos, estarão salvos. No entanto, quando cada parte de seus corpos desde as mãos até o coração é caçada por um mundo ensandecido, 18 anos parece muito, muito longe.

Enredo

No universo distópico criado por Neal Shusterman a prática de fragmentação de adolescentes vivos, conhecida como aborto retroativo, é algo comum e rotineiro. Este cenário teve início após a guerra de Heartland, onde os exércitos pró-escolha e pró-vida lutaram exaustivamente por suas causas, até chegarem ao acordo que permitia a fragmentação dos jovens para abastecimento dos bancos de órgãos.

No procedimento todas as partes dos chamados ‘fragmentários’ são aproveitadas, absolutamente nada é desperdiçado e procedimento é realizado com o adolescente consciente. Tal façanha só se tornou possível devido a um cientista que descobriu como transplantar todos os tecidos humanos sem nenhuma perda. O adolescente é mantido por um tempo nos chamados campos de colheita para ser preparado. No dia das operações é mantido consciente e recebe uma anestesia para que não sinta nenhuma dor e então todos os seus órgãos, tecidos e ossos são retirados.

É claro que, se mais pessoas tivessem doado seus órgãos, a fragmentação nunca teria acontecido… mas as pessoas gostam de guardar o que é delas, mesmo depois de morrer. Não levou muito tempo para que a ética fosse esmagada pela ganância. A fragmentação tornou-se um grande negócio, e as pessoas deixaram que acontecesse.

O processo de fragmentação deve ser autorizado pelos pais, assinando uma triplicata conhecida como ‘ordem de fragmentação’ que concede ao estado o direito de recolher os jovens e os manter nos campos de colheita onde são preparados até a realização da técnica. Nos hospitais quaisquer problemas, doenças e feridas que um paciente possa apresentar, são resolvidos imediatamente realizando o transplante do órgão problemático por um novo, cuja saúde depende do valor que cliente possa desembolsar.

Nesta sociedade existe ainda outra lei que permite que mães que não queiram ficar com seus filhos recém-nascidos possam deixá-los na porta de alguma casa e o bebê passa a ser da família que o encontrar. Porém, se a mãe for pega em flagrante abandonando o bebê, é obrigada a continuar com o mesmo. As crianças abandonadas ou órfãs que não conseguem nenhuma família são recolhidas e crescem nos orfanatos do estado até que completem 18 anos ou sejam enviadas para a fragmentação. Os custos para manter essas crianças nos orfanatos são muito elevados para ao estado, por isso a maioria é fragmentada, a menos que apresente alguma habilidade muito notória para a sociedade.

As igrejas não só aceitaram bem a fragmentação como encorajam os adultos a doarem um de seus filhos para as colheitas, os chamados ‘dízimos’. Esses adolescentes são criados desde cedo sabendo do seu destino e seu propósito para a sociedade e são sempre levados a acreditar que são superiores aos demais fragmentários e que farão um bem para a humanidade.

A narração é feita em terceira pessoa, porém cada capítulo foca em um personagem diferente e o livro é divido por partes, sete ao total que começam sempre com uma notícia, conversa ou fragmento de texto que introduz o foco da próxima parte. Porém não são somente os protagonistas que têm voz no livro. Vários outros personagens e pontos de vista são apresentados ao longo da narrativa.

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Personagens

Connor é um adolescente de classe média e vive com seus pais e seu irmão mais novo. Seu comportamento não é o mais exemplar: o rapaz tem o pavio curto, está metido em várias brigas no seu colégio e não tira notas boas. Connor é namorado de Ariana, porém os pais da moça não aprovam esse relacionamento por causa do comportamento dele.

Certo dia, procurando um grampeador no escritório do pai, Connor se depara com a ordem de fragmentação assinada por seus pais e também passagens para a Bahamas agendadas para um dia depois que os guardas o buscassem para encaminhar para o campo de colheita. Connor conta tudo a Ariana e os dois decidem fugir juntos.

Connor consegue fugir no dia planejado, recebe ajuda de um caminhoneiro para sair de sua cidade, porém ambos são parados na estrada pela polícia, acompanhada do pai do rapaz. Na tentativa de fugir, Connor causa um acidente com um veículo na estrada, sequestra outro adolescente no tumulto e o leva como refém durante sua fuga.

Risa mora em um orfanato estatal e é uma jovem exemplar. A garota é uma excelente pianista e mantém a esperança que isso seja suficiente para que o orfanato perceba seu valor na sociedade e a poupe da fragmentação. No começo do primeiro capítulo de Risa, ela está tocando em um recital promovido pelo orfanato, mas se desconcentra e erra algumas notas algumas vezes. Embora seu professor afirme que ela foi muito bem, Risa sabe que isso não será suficiente.

Em outro momento Risa é levada para uma conversa com o seu professor e uma assistente social e descobre que seu tempo acabou: ela não terá oportunidade de desenvolver suas habilidades, pois será fragmentada. Enquanto está sendo levada para um campo de colheita, o ônibus que transporta a garotas e vários outros fragmentários freia bruscamente, perde o controle e sai da pista. Nesse momento Risa vê, talvez sua única oportunidade de escapar, e foge.

Lev é um adolescente gentil e educado, criado em uma família rica que sempre o tratou bem e deu ao jovem tudo de melhor, principalmente porque Lev é um dízimo. O garoto é o décimo filho de seus pais, entre próprios e adotados, e cresceu sabendo da função de sua vida e sendo educado e preparado pelo pastor e amigo próximo da família, Dan.

Em seu primeiro capítulo, Lev está aproveitando sua festa de aniversário e de despedida, para celebrar sua vida e principalmente sua partida para o campo de colheita. Na manhã seguinte, Lev, seu pai e Dan se dirigem para o campo de colheita, mas nunca completam o circuito, pois um acidente causa o fechamento da estrada em que estão.

É Justamente nesse acidente e no tumulto consequente que os jovens são ligados e partem em uma aventura em busca de liberdade e a partir desse momento que passamos a acompanhar a jornada desses adolescentes pela sobrevivência.

Minha opinião

Tudo indica que tenho um novo candidato a favorito do ano! Eu não tenho absolutamente nada a reclamar do livro, da história, dos personagens, NADA. A princípio não gostei muito da capa, mas parando para analisar, ela apresenta uma forma de identificar uma pessoa: a impressão digital e o conceito de identidade, bem como o de alma e consciência são amplamente abordados no livro. Ao terminar a leitura, não consegui pensar em uma capa melhor para a obra.

Não achei nenhum erro grotesco de concordância ou ortografia, porém me deparei com um ‘queijo’ no lugar de ‘queixo’ e ri muito. Foi feito um excelente trabalho com diagramação, tradução e revisão, só tenho elogios a fazer. A estruturação do livro em partes e em capítulos curtos deixou a leitura bem fluida e dinâmica. Não achei, de forma alguma, que os vários pontos de vista tenham deixado a narrativa confusa ou sem sentido.

Sobre os personagens: são construídos em camadas e em cada capítulo descobrimos um pouco mais deles, de suas respectivas histórias e do que os levou até aquele momento. Não pensem que são personagens simples e leves, pelo contrário, são bastante complexos e evoluem muito durante a narrativa. Você os vê cometendo erros e fica nervoso, mas quando eles acertam bate aquele orgulho! Tem personagem para todas as emoções que o leitor possa sentir: alguns dão pena, outros raiva, nojo, dó e por aí vai. Acreditem, a diversidade foi muito bem trabalhada. Dito isso, quero dizer que sempre imaginei o personagem Lev gordo, não sei por que HAHA.

A escrita de Neal é inteligente e perspicaz, o autor não oferece nada ao leitor que não seja importante ou que não vá ser trabalhado ou explicado adiante. Parece que ele está abrindo muitas pontas, mas elas são fechadas ao longo do livro. Ele fez um ótimo trabalho construindo um mundo novo, as nuances da sociedade e o histórico por trás da trama. Fiquei com muita vontade de ler os outros trabalhos do autor.

Considerações finais

Fragmentados é uma distopia profunda e complexa e não chega nem a ser classificada como literatura infanto-juvenil. Os temas são abordados de forma sombria, visceral e sincera. O leitor é forçado a pensar e a se posicionar quanto aos assuntos que são abordados como doação de órgãos, poder de escolha, consciência, preconceito e outros.

De certa forma, a obra criada por Neal não está nem um pouco longe da realidade e ouso dizer, já acontece há bastante tempo. Por que digo isso? Mercado negro de órgãos. O autor acertou muito em tratar um assunto polêmico de forma tão crua e ainda por cima inserir religião no meio de tudo. Ele ainda consegue reproduzir de forma muito convincente vários aspectos da natureza humana e com isso ganhou muitos pontos comigo. Recomendo para todos sem nenhuma exceção.

Citações

Eu nunca seria grande coisa mesmo (…), mas agora, falando estatisticamente, há uma chance maior de que alguma parte minha alcance a grandeza em algum lugar do mundo. Eu prefiro ser parcialmente grande a ser completamente imprestável.

Por favor o quê?, pensa a professora. Por favor, desobedeça a lei? Por favor, coloque a si mesma e a escola em risco? Mas não, não é nada disso. O que ele realmente está dizendo é: Por favor, seja humana. Com uma vida tão cheia de regras e controle, é tão fácil esquecer que é isso que eles são. Ela sabe – ela entende – com que frequência a compaixão é suplantada pela conveniência.

Talvez. Talvez não. Você aprende uma coisa depois de ter vivido tanto quanto eu vivi: as pessoas não são completamente boas nem completamente ruins. A gente passa a vida toda entrando e saindo das sombras e da luz. Neste momento, estou feliz por estar na luz.

Você não pode mudar as leis sem antes mudar a natura humana.
(…)
Você não pode mudar a natureza humana sem antes mudar a lei.

E esse menino… ele nem mesmo entende que é parte de mim. É como aqueles fantasmas que num sabem que morreram. Ele fica tentando ser ele e num consegue entender por que o resto dele num tá aqui.

O relacionamento nunca dará em nada, mas de alguma forma ele está contente em saber que, em outro lugar e época, teria dado.

Não sei o que acontece com a nossa consciência quando somos fragmentados. (…) Nem sei quando é que começa a consciência. (…) Mas de uma coisa eu sei. (…) Nós temos direito à vida!

Sobre o autor

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Neal Shusterman escreveu mais de 30 livros premiados para jovens e adultos, incluindo Full Tilt, a Trilogia Skinkacker, Unwholly, Bruiser e The Schwa Was Here, que recebeu o Boston Globe-Horn Award como melhor livro de ficção. Ele também escreve roteiros para o cinema e a televisão, como Animorphs e Goosebumps. Pai de quatro filhos, Neal vive no sul da Califórnia.
 
O autor tem tumblr, facebook, twitter e instagram.
 
Compre o livro em: Amazon | Submarino | Saraiva | Livraria Cultura
 

Extras

Fragmentados vai virar filme!! O autor postou em seu tumblr que o filme já está quase em fase de produção. A Constantin Films tem previsão para comerçar a produção em abril 2016, contando com a direção de Roger Avary. O roteiro, escrito por Roger Avary e Gala, está a ser afinado, e o teaser de abertura está sendo filmado para ser mostrado no Toronto International Film Festival (TIFF) e no American Film Market (AFM). O processo de seleção para escolha dos personagens principais acabou de começar, mas não temos nenhuma outra novidade (ainda).

Fragmentados é uma série e já possui vários livros publicados lá fora, vamos torcer pra Novo Conceito trazer o resto também! Vou listar os nomes e uma tradução aproximada (quando eles forem lançados a gente vem ver se eu acertei HAHA)
Unwind (2007) – Fragmentados
UnStrung (2012) (digital novella) – Desconectados
UnWholly (2012) – Incompletos
UnSouled (2013) – Desalmados
UnDivided (2014) – Inseparáveis
UnBound (2015) (short story collection) – Ilimitados

Juliane Oliveira

Gosto de distopias memoráveis e contemporâneos que não sejam desnecessariamente tristes. Não sou muito fã de dias chuvosos ou frios. Apaixonada por séries, livros, filmes e pets no geral.

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Discussion about this post

  1. Rafaela disse:

    Desde que vi o booktrailer desse livro eu me interessei, e depois da tua resenha a vontade de ler aumentou! Fiquei bem empolgada ao descobrir que é uma história com pontas amarradinhas e personagens profundos, estava com medo de ser uma daquelas histórias pretensiosas que não convencem muito. Masss confesso que fiquei com preguiça de ler quando vi no final que é uma série, haha! Talvez eu espere pra ler quando a estreia do filme se aproximar, para poder comparar a adaptação (método bem eficaz de autotortura hehehe)
    Beijos, Ju!

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