Resenha: Os dois Mundos de Astrid Jones, A. S. King

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Título: Os dois Mundos de Astrid Jones
Título Original: Ask the Passengers
Autora: A. S. King
Editora: Gutenberg
Páginas: 288
Lançamento: 2015
Nota: ★★★★★

 
 
 

Sinopse

“O movimento é impossível.” É o que Astrid Jones, 17 anos, aprendeu na sua aula de filosofia. E, vivendo na pequena cidade em que mora, ela começa a acreditar que isso é mesmo verdade. São sempre as mesmas pessoas, as mesmas fofocas, a mesma visão de mundo limitada, como se estivessem todos presos em uma caverna, nunca enxergando nada além.

Nesse ambiente, ela não tem com quem desabafar suas angústias, e por isso deita-se em seu jardim, olha os aviões no céu, e expõe suas dúvidas mais secretas aos passageiros, já que eles nunca irão julgá-la. Em seu conflito solitário, ela se vê dividida entre dois mundos: um em que é livre para ser quem é de verdade e dar vazão ao que vai em seu íntimo, e outro em que precisa se enquadrar desconfortavelmente em convenções sociais.

Em um retrato original de uma garota que luta para se libertar de definições ultrapassadas, este livro leva os leitores a questionarem tudo e oferece esperança para aqueles que nunca deixarão de buscar o significado do amor verdadeiro.

Enredo e personagens

Mas é bom amar uma coisa e não esperar nada em troca. É bom não haver discussão nem pressão alguma, ou qualquer boato de qualquer besteira. É um amor sem amarras. É o ideal.

E quando você vê um avião no céu, qual é sua reação? Astrid Jones, nossa personagem principal, manda seu amor para os passageiros. Ela manda amor sem limites, sem barreiras, sem medo, ela manda porque sabe de eles precisam, todos eles, e ela manda porque também precisa.

É uma entrega.
Porque se eu entregar tudo, então ninguém vai poder me controlar.
Porque se eu entregar tudo, estarei livre.

Quando não está mandando esse sentimento pelos ares, tem que lidar com as mazelas da vida, aquelas que são muito presentes na vida de todo adolescente. A escola, sua família, seus amigos e seus relacionamentos amorosos. Todos essas partes da vida de Astrid estão muito integradas, mesmo na confusão que isso pode gerar em sua mente.

Então vamos por partes, Astrid e sua família são relativamente novos na cidade. Vieram de Nova York, uma cidade bem grande, para Unity Valley, uma cidade bem pequena. O choque é a primeira coisa com que teve que lidar, a dinâmica e rotina são muito diferentes, a forma como uma cidade pequena parece se importar muito mais com a vida de seus habitantes – vulgo, as fofocas – em comparação a um lugar tão grande que você é visto apenas com um pontinho.

Depende de como você vê, acho. Qualquer coisa pode ser falsa ou verdadeira se você virá-la de cabeça para baixo.

Esse modo de vida é mais forte e presente na escola, adicionado ao bullying nosso de cada dia. Astrid é editora da revista literária da escola, e no último ano adicionou ao seu currículo trigonometria e filosofia – porque achou que podia ser divertido – e são dois fatos importantes. Além disso, ela é melhor amiga de uma garota popular e queridinha, Kristina, e seu namorado Justin, fazendo com que todos notem mais o quanto ela é estranha e esquisita, se sentindo até um pouco descolada.

Eu me deito aqui e pergunto a mim mesma quantas coisas eu tenho de inventar na minha mente para sobreviver a isso?

Vamos para a vida familiar:

Ellie, sua irmã, é jogadora de hóquei e tem atenção e mimo excessivo da mãe. Mesmo sendo um ano mais nova do que Astrid, ela tem a permissão para beber com a mãe nas noites de “Mamãe e Filhinha”, se maquiar, fazer compras e tudo o que tem direito, mas isso cobra um preço e ela tem que lidar com uma pressão ainda mais para ser perfeita.

Seu pai, Garry, é um personagem um tanto triste, ele vive na sombra de sua esposa e abaixa a cabeça sempre para ela, mesmo sabendo quando está errada. Seus fracassos e falta de força de vontade, seus pontos fracos são expostos, principalmente porque tem um emprego muito inferior e está basicamente deteriorando seu cérebro com a maconha, mas ele é sempre legal com Astrid.

Escuto a voz do meu pai: Precisa deixar as pessoas te conhecerem antes de decidir que elas não gostam de você.

Agora a mãe, Claire, é alguém que pode te deixar irritado. Sempre se vestindo impecável, usar pijama para trabalhar em casa desde que se mudaram nunca foi uma opção. Egoísta e autocentrada, nada menos do que a perfeição e a força de vontade, para ela, tentar não é o suficiente. Sua atenção sempre se direciona para Ellie e sua decepção está sempre com os outros dois da família como foco. Sua mente não é tão aberta quanto pensa, e ela acha que pode se meter na vida de todos como bem quer, porque ela é muito legal – sqn.

Mãe, eu te amo mesmo que você não possa dizer que sente muito ou admitir que estava errada. Se você parasse de pensar que há algo como perfeição, então você se sentiria muito melhor em relação a si mesma. E a mim.

Com todo esse ambiente, Astrid não vê tanto espaço para compartilhar seu mundo. Ela encontra na filosofia uma paixão e algo que pode lhe trazer suas respostas, mesmo que venha junto no pacote um aglomerado de novas dúvidas. O seu lado questionador, o fato de ser reflexiva, é algo muito presente na trama, quase como um personagem, e com isso ela vai aprendendo que algumas verdades são bem diferentes das outras. Ela aprende mais sobre si mesma, sobre todos a sua volta. Ela aprende mais sobre o mundo, e mesmo que não saiba, o amor que manda para os passageiros é reciproco, e eles mandam algo de volta para ela.

Você já se perguntou se o que você acredita é realidade? Quero dizer, que além disso há uma realidade real que é mais real do que a realidade em que acreditamos?

Minha Opinião

Depois de uma porção de livros medianos, pegar um livro que você favorita é um alívio gigantesco. Já havia ouvido falar de A. S. King há muito tempo, porém só tive real contato com sua obra esse ano. Sempre elogiada, minha expectativa estava nas alturas, mas mesmo com isso não houve decepção.

A escrita de King, nesse caso em primeira pessoa, é bastante emocional e gostosa, a forma como vamos conhecendo as todas coisas é natural, e você entende que isso se dá de acordo com o momento com que Astrid vai se sentindo preparada para deixar seu outro mundo se mostrar. Não falei tão detalhadamente na parte de enredo porque sinceramente, você vai querer ter a mesma experiência de descobrir as coisas conforme o livro apresenta.

Ela menciona vários temas cotidianos, como a dificuldade de se comunicar com os pais, o bullying, o futuro como uma preocupação, homossexualidade, a vida escolar em seus amplos meios e relacionamentos como um todo, não só amorosos, mas de amizade. Acho que uma mensagem forte nesse livro é esse questionamento com relação a busca da perfeição sendo mais importante do que uma busca por satisfação pessoal.

Francamente, quanto mais leio sobre filósofos da Grécia Antiga, mais penso que a vida dela é um desperdício. O que ela está aprendendo? O que ela está questionando? Ela sabe de tudo, o que significa que não sabe de nada.

Considerações finais

O livro chegou aqui com uma edição muito boa, a diagramação ficou maravilhosa, bem propícia mesmo para a leitura, de um jeito que não te cansa. Encontrei alguns errinhos que a revisão deixou passar, mas eu nem sempre sou atenta a isso. Também percebi um problema de tradução que me deixou levemente confusa no contexto “Miss/Mister” como “Professora/Professor”, mas nada que não possa ser resolvido em uma segunda edição. A capa é bem bonitinha, como não sou a maior fã de capas com pessoas, a dessa edição me agradou mais do que a de fora.

Autor

A.-S.-King

É autora conhecida por seus romances premiados para jovens, embora também escreva para adultos. Seus prestigiados livros Glory O’Brien’s History of the Future e Reality Boy foram vencedores do Los Angeles Times Book Prize de 2012. Ask the Passengers e Everybody Sees the Ants integraram a lista da ALA Top Ten Book for Young Adults de 2012 e do Andre Norton Award; com Please Ignore Vera Dietz, ela ganhou o Edgar Allan Poe Award e o Michael L. Printz Honor Book de 2011. É também autora de Dust of 100 Dogs e do livro de contos premiado, Monica Never Shuts Up. Depois de mais de uma década morando na Irlanda, período em que se dividiu entre a restauração de sua fazenda, a alfabetização de adultos, e a escrita de romances, ela voltou para os Estados Unidos em 2004, e hoje mora com o marido e filhos na Pensilvânia.

 

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