O papel de parede amarelo

O papel de parede amarelo é um conto clássico feminista intenso, verdadeiro e que te prende do início ao fim. Seguimos a jornada de uma mulher que é isolada em uma casa afim de recuperar suas energias e se sentir curada de uma doença dos nervos, uma crise psicológica. Seu marido e médico é zeloso e graças a ele percebemos a influência e o desenvolvimento psicológico da mulher.

Em primeira pessoa, a narradora nos conta sobre a casa que ela e seu marido conseguiram alugar para o verão, já de início ela sente uma estranheza com relação a casa, porém, John ri dela. Ele é seu médico, assim como o irmão, e desacredita na seriedade de sua doença, é um homem descrito como prático e bastante amoroso.

John é médico, e talvez – (eu não o diria a vivalma, é claro, mas segredar apenas ao papel já é um grande alívio para minha mente) -, talvez seja por isso que não me recupero mais rápido.

Ela é privada de escolher onde dormir, porque John sabe o que é melhor, afinal, ela precisa de todo o ar que puder. É também privada de trabalhar, pois John a indica de que qualquer trabalho intelectual possa ser prejudicial e desgastante para sua doença. A narradora é ainda privada de liberdade, pois acima de tudo sempre há alguém lhe vigiando e dizendo o que é melhor a ela. No meio disso, num ato de rebeldia, ela escreve nesse diário, como forma de se aliviar e entender suas mazelas.

Em cada passagem ela fala sobre o quarto em que se instala, o quarto infantil de outrora, e seu refúgio seguro. Também sobre o seu papel de parede amarelo, quase um personagem, que a intriga e enoja do início ao fim. Vemos o decorrer de sua doença, de sua piora, apesar de seu marido dizer o contrário. Ela passa a dormir menos, a comer mal e se sentir obcecada cada vez mais pelo papel de parede, tudo levando a se sentir mais exausta e mal disposta.

Começo, digamos, pela parte de baixo, naquele canto intocado logo ali, e decido pela milésima vez que seguirei o desenho sem sentido até chegar a alguma espécie de conclusão.

A narradora passa a ver algo no papel de parede, algo mais que ninguém vê e que apenas ela deve desvendar. Passamos a questionar e entender junto a ela, algo a que nos revela um outro lado, talvez o mais íntimo, chegando ao momento onde refletimos sobre todas as metáforas que nos são oferecidas.

    Minha opinião

Meu contato com textos feministas se dá principalmente por blogs e textos acadêmicos. Outro que li foi com Sejamos todos feministas, da Chimamanda Ngozi Adichie, que inclusive indico muito. Pegar O papel de parede amarelo para ler foi ter uma nova experiência. A escrita é muito fluida e intensa, Charlotte Perkins Gilman, traz nesse conto uma aspecto de sua vivencia, tanto pela época em que vivia como por se tratar de um escrito em grande parte autobiográfico.

Cheio de metáfora e frases cruas, Gilman nos mostra uma crítica ao papel social da mulher no século XIX. Percebemos, por meio dos relatos de sua heroína, como suas vontades e pensamentos são anulados e como é o homem que tinha o poder de dar crédito ao que a mulher passa. A racionalidade do marido o leva a contestá-la em uma doença que nem por inteiro acredita ser verdade, apesar de usá-la como forma de controlá-la, ainda que se mostre “muito atencioso e amável”.

A mulher vai se anulando, perdendo uma identidade sua e a sobrepondo com a identidade de esposa, mãe, dona de casa. Isolada, ela se fecha em si mesma, vai se deteriorando por estar privada de contatos com outras pessoas e com o trabalho de escrita. Nossa heroína, que não tem nem nome, acredita no marido, e qualquer indicação do contrário a faz se sentir culpada e com certa sensação de estar sendo ingrata. O enclausuramento cobra seu preço, a esgota e faz uma “violação intelectual e emocional”.

Senti que ela se identifica com o papel de parede amarelo. A obsessão é persistente e começa sutil. O papel de parede representa ela? É uma prisão para ela? O padrão a aprisiona e quando é que ela sai?

Ora, toda mulher conhece o papel de parede amarelo e seu bizarro padrão. Muitas o rasgam e saem de dentro dele num ato de transgressão cujo preço é conhecido. Contemplá-lo e rasgá-lo é um ato de desconstrução que pode levar além da casa. Sair dela continua não sendo fácil, mas é o convite que Gilman, em seu generoso gesto literário, nos faz ainda hoje.”

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Discussion about this post

  1. Oiii!
    Estou muito curiosa com este livro, acredito ser d eleitura obrigatória para nós mulheres.

    Pretendo ler muito embreve. \o/

    P.S.: Adorei seu blog ^^

    Beijos,
    May

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