Carry On, Rainbow Rowell

Se você leu Fangirl, vai se lembrar do amor e dedicação de Cath para a série de livros onde Simon Snow é o personagem principal de um mundo dominado pela magia. Em Fangirl, acompanhamos os desdobramentos que uma história pode causar na vida de um jovem – bem estilo Harry Potter com nossas vidas – quando a personagem tira lições dos livros e escreve sua fanfic para expor seus próprios pensamentos e sentimentos a respeito daquele mundo e do mundo que nos cerca. Com Carry On, Rainbow Rowell deu voz aos personagens de uma personagem, deixando que eles viessem ao mundo.

Simon Snow é o único que pode salvar o mundo da magia, ele foi escolhido e profetizado. O maior inimigo de mundo: Insípidum, mago mais temido de todos os tempos. O maior inimigo de Simon: Baz, seu colega de quarto. O plot todo já nos é conhecido, crescemos ouvindo sobre Harry ser o único a poder derrotar Voldemort, mas a forma como a história de Simon se desenrola é empolgante quanto tudo que Rowell nos conduz.

E surgirá alguém para acabar conosco.
E alguém que o arruinará.
Que o maior poder entre os poderes reine,
Que ele salve a todos nós.

Há a escola de magia de Watford, onde o garoto órfão chegou aos 11 anos e passa o ano letivo aprendendo feitiços e toda a sorte de elementos que possam ajuda-lo na tarefa de sua vida. O garoto chega cru, despreparado e – ao meu ver – traumatizado ao lugar, tendo que significar toda uma vida que não foi vivida. Lá, na escola, Simon ao menos tenta aprender, porque possui uma inabilidade nata para a magia e não consegue controla-la dentro do próprio corpo. Com Penélope, sua melhor amiga, Agatha, sua namorada, e até mesmo Baz, Simon entende que a magia tem princípios básicos, mas se expressam de forma diferente em cada corpo. Os feitiços podem ser ensinados, mas a magia fluindo deve ser moldada por ele mesmo, não há jeito.

O mito do herói, com o chamado para a missão e as tarefas a seguir até a conclusão, é bem percebido e aproveitado nessa história. Simon não é perfeito, é confuso, instável, problemático e um garoto normal dentro de um contexto caótico, bem ao estilo eu não pedi por isso. Ele dá passos a frente e para trás no decorrer do livro, há descobertas do mundo e de si mesmo, e é interessante mostrar que ele pode não ter sabido lidar com todas as mudanças decorrentes de uma vida de escolhas. A expectativa dos outros, a forma como os outros veem Simon, o sentimento que ele desperta a sua volta, tudo faz com que um peso extra se instale constantemente em suas costas.

Insípidum eestá sugando a magia do mundo, sua namorada está estranha com ele e Baz não voltou para o colégio depois das férias. É em meio a isso que Simon se vê, tendo batalhas pelo mundo e dentro de si para vencer.

    Minha opinião

Sou uma Potterhead (Sonserina, obrigada) e uma admiradora do trabalho da Rowell, além de ter escrito fanfics durante um tempo – incluindo algumas Drarry – , então esse livro é para mim como um presente. A impressão que temos é que Rainbow Rowell escreveu sua própria fanfic, se baseando em pontos chaves, para poder fazer com a história o que quisesse.

No começo do livro, todas as similaridades com a história de J. K. Rowling podem incomodar, como se tivesse algo de errado (porque plágio é absolutamente errado!), mas você vai ouvindo a voz de Rowell, e vai percebendo que os personagens querem contar sua própria história ali, que a construção daquele mundo é única e interessante. Em primeira pessoa e com pontos de vistas intercalados, a experiência é rica e agrega a trama na construção do personagem principal e daqueles que lhe servem de apoio.

A história é um volume único (pelo menos até agora, oremos), mas é dividida em quatro livros mais um epílogo, todos marcados por uma ilustração. Essa separação é pontuada por um acontecimento importante, como o fim de um episódio de seriado, funciona bastante bem assim. Por vezes achei que as coisas aconteciam rápido ou lento demais, mas acho que isso se dá justamente pelo fato de a autora querer completar a história ali, naquelas 400 e poucas páginas. A linguagem é fácil, normal do dia-a-dia, o que combina com a forma como os feitiços são feitos. No mundo de Simon, as palavras tem força e intencionalidade e são responsáveis pelos feitos. Por exemplo, frases como “quem não se escondeu, não esconde mais” ou “eu queria poder voar!” podem representar um desejo ou uma ordem a se concretizar.

Outro fator que nos ajuda a adentrar na história é que o mundo da magia e o mundo sem magia vive meio integrado, apesar de haver famílias inteiramente bruxas e conservadoras. Há uma simbiose entre todos, uma real necessidade de um e de outro. E essa simbiose é também presente nos relacionamentos dos personagens, alguns não foram tão bem apresentados, o que seria muito legal de acontecer, mas a simpatia acontece quando deve acontecer. Eu, particularmente, gostaria de ter mais uma chance para conhecer algumas pessoas ali.

Agora, a parte que pode ser spoiler – ou não – é o relacionamento de Simon e Baz. NÃO PRECISA LER SE NÃO QUISER, FOGE DAQUI, AINDA DÁ TEMPO!!!!!

Eu avisei!

As coisas acontecem de forma interessante, o antagonismo deles é um fator forte, importante e que marca uma parte deles que buscam entender. Rowell conseguiu deixar delicado na forma como acontece, mas ao mesmo tempo verossímil. É um romance? É! Tem algo de meloso ali? Tem! Mas não é algo que você só vê nos livros (tirando as partes que envolvem magia e criaturas místicas, claro, isso a gente só vê nos livros e filmes e jogos mesmo).

Acho importante que livros da categoria jovem adulto com personagens gays estejam chegando por aqui, acho importante que os autores comecem a incluir personagens de toda uma diversidade em suas histórias, porque essas são as pessoas reais. Mas, também acho importantíssimo que esses autores, que já estão dando a cara a tapa, tenham um cuidado redobrado. Simon namorava Agatha, mas beija Baz e gosta disso, só que ele passa grande parte do tempo tentando entender se é gay, aqui a possibilidade de que ele seja bissexual nem foi mencionada e nem mesmo a busca por uma falta de rótulo. Veja bem, o trabalho dela tem suas falhas, e esse assunto tem nuances demais, mas é de extrema importância porque representatividade importa sim.

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Carry On
Rainbow Rowell
Novo Século
448 páginas
Lançamento: 2016
Comprar (Amazon – R$ 32,80)
Leia o 1º capítulo

 
 
 

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6 Discussion to this post

  1. Racke disse:

    Estou muito curiosa para conhecer a escrita da autora . Parabéns pela resenha ♥️

    • Laryssa Tavares disse:

      Obrigada!
      Se quer começar a conhecer a autora, eu te indico fortemente “Eleanor & Park”, eu ainda espero do fundo do meu coração que exista uma continuação um dia!

  2. Mana, eu li resenhas sobre o livro Fangirl e até tinha ouvido especulações de que tinha um spin off, e tem mesmo???? Gente, adorei saber disso! Achei isso super divertido e a história parece bem legal, principalmente por se tratar de uma fanfic, pelo que eu entendi. Aliás, vem cá e me abraça porque também sou sonserina (tão raro achar um de nós que até tive um sentimento de lufana aqui kkkkk). Gostei muito da resenha e quero muito conhecer ambos os livros.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

    • Laryssa Tavares disse:

      AEEEE, SONSERIIIINAAAA!!!! Ahazou na sua casa, viu? A gente é uma raridade no mundo mesmo ): mas vamos nos juntar pra dominar o mundo. MUÁÁÁÁÁ brincandeira
      Siim, spin off maravilhoso. No livro Fangirl a gente conhece a história do Simon por meio da fanfic da Cath, a protagonista, daí nesse livro a Rowell conta a história de fato. E eu achei bem maravilhoso! Eu adoro a escrita dela, então eu meio que leria tudo porque tudo funciona pra mim. Leia Fangirl, os personagens são apaixonantes, aí vai pra Carry On, acho que não vai se arrepender.

      Abraços!

  3. Luciana Campos disse:

    Hmmm, sinceramente? Não me atraiu não :/ Tenho até certa vontade em ler livros da autora como Anexos e Ligações, mas já achei esse infantil e cópia de HP demais… Eu não teria a iniciativa de comprar, mas se ganhasse ou algo do tipo, tentaria ler de mente aberta.

    • Laryssa Tavares disse:

      Ah, espero que um dia ganhe o livro, assim você tem a oportunidade perfeita!
      Eu fiquei meio com isso de cópia de Harry Potter na cabeça, mas lendo, eu vi que era mais uma homenagem do que isso. Lê algo da autora, eu sempre indico Eleanor & Park, porque é bonitinho, mas tem uns temas mais intensos, acho um livro muito bem escrito.

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