Além da sobrevivência, Kathryn Lasky

Uma loba caminha atrás de uma cova longe o bastante para que pudesse dar a luz. Queria proteger a si mesmo e a seus filhotes, a Obea estava sempre a espreita, fora todos os perigos naturais, como predadores ou o frio congelante. Três filhotes vieram, todos aparentemente saudáveis, até que se olhasse melhor para o terceiro, o cinza prateado, que possuía a pata dianteira mais larga que as outras e uma estranha marca em espiral. A loba, logo constatou, dera a luz a um malcadh, a antiga palavra de seu idioma para amaldiçoado.

A Obea, um posto entre a hierarquia dos lobos, era sempre uma loba que não pôde ter filhotes e escolhida para levar os lobos conhecidos como malcadh, aqueles que apresentavam alguma deficiência de nascença, para algum lugar ermo. A intenção do ato era manter a alcateia sempre saudável e pura, já que os pais teriam que se separar e procurar outra alcateia para si e os filhotes eram deixados a sua própria sorte para a morte ou para superá-la e encontrar novamente o lugar entre os seus, voltando como lobo-ômega – o de mais baixa hierarquia.

O pequeno filhote cinza, sem compreender porque foi separado bruscamente do calor e leite materno, é deixado na margem do rio, com todos os perigos a volta. Obea faz o que tem que fazer, seu dever é sagrado, e o lobinho é deixado ali. O gelo começa a derreter e o frio encharca seu pelo, a correnteza é que o leva para seu destino.

Próximo dali, uma ursa-parda está lamentando em uma cova. Ela acaba de perder seu único filhote daquela ninhada, possivelmente a sua última, para uma puma faminta. Não há ânimo ou consolo para ela, ela sente ter forças suficientes apenas para esperar a sua hora de ir embora e ir encontrar suas crias. Já pelas tantas da noite, a ursa sente um estranho objeto em sua perna: o rio levou o lobinho cinza até ela, ela viu ali uma espécie de centelha e a partir daquele momento o criou como seu próprio filhote.

– Faolan – ela sussurrou. – Eu vou chamá-lo de Faolan. – Fao significa tanto “rio” quanto “lobo”. E lan era a palavra para “dádiva”.

Criado por uma ursa-parda, Faolan não tinha muita noção de todos os grandes e pequenos rituais, as hierarquias, as práticas e tudo que era sagrado para aqueles de sua espécie. Quando muito pequeno, sua maior preocupação era ter o que comer e estar sempre com a “Coração de Trovão” – a maneira como o coração de sua mãe adotiva soava para ele – por perto. De fato, ele cresceu sem entender muito quem era ele ali, naquele mundo, pois tanto ele quanto os outros o viam de uma forma diferente, mas ele se senti tão próximo a Coração de Trovão. Crescer e aprender, crescer e ficar cada vez mais forte para buscar seu caminho no mundo.

(…) Faolan não cresceu um centímetro, mas ainda assim parecia maior. Por um momento, ela observou o filhote aprisionado em dois mundo – um dos quais jamais vira.

    Minha opinião

Além da Sobrevivência é o primeiro livro da série Guardiões da Coragem, spin off da série de livros A Lenda dos Guardiões – aquela que deu origem ao filme dirigido por Zack Snyder. Na primeira série os protagonistas são corujas, conhecemos seus hábitos e rituais de forma impressionantemente verossímil, pela pesquisa intensa que Kathryn faz, e somos introduzidos a história onde lobos e corujas estão entrelaçados por um bem maior.

Ele sentiu como se houvesse alguma estrada de estrelas terrena, uma passagem para um tempo anterior ao tempo, quando a história dos lobos e das corujas começou a se entrelaçar.

Kathryn Lasky escreve para o público infanto-juvenil, a forma como ela narra, em terceira pessoa, o livro é interessante e prende a atenção, é uma ótima série para ajudar às crianças a terem gosto pela leitura e para ajudarem àqueles mais velhos a terem um alívio de leituras mais pesadas. A história é um prato cheio para diversão e aprendizagem.

Sempre que leio algum dos livros dessas séries, me impressiono com a capacidade de Kathryn de criar uma história com lobos, corujas e ursos que falam e não me parecer tedioso, na verdade ser fácil de imaginar aquilo como algo plausível. Ela cria identidades para seus personagens cheias de força e superação, e nos dá um saudosismo dos filmes da seção da tarde e da Disney. Além do mais, eu adoro os nomes dos personagens, Soren, da série das corujas é o nome do meu primeiro gato.

Sobre a edição, acho interessante os detalhes, principalmente por se tratar de um livro para o público infantil. A capa é igual a original, apenas adaptada, e acaba me lembrando um pouco o tipo de trabalho editorial feito nos anos oitenta, talvez pelas ilustrações, que também estão nas separações das três partes que compõe o livro. Algumas partes com errinhos pequenos, talvez de digitação, mas nada que atrapalhe a compreensão da leitura.

Estou ansiosa para acompanhar Faolan, o lobo cinza com a estranha espiral na pata, que segue seu caminho para de sobrevivência e aprendizado.

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Além da sobrevivência (Lone Wolf)
Kathryn Lasky
Editora Fundamento
176 páginas
Lançamento: 2015
Comprar (Amazon – R$ 23,60)
 
 
 

 
 

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4 Discussion to this post

  1. Acredita que eu nunca li um livro que girasse em torno de animais, ou melhor, que os tivesse como protagonista? Eu já tinha ouvido falar do filme A Lenda dos Guardiões, mas não fazia ideia de que se tratava de um livro. Depois darei uma olhada em informações sobre o primeiro livro da série, mas vou comentar sobre esses: gosto muito de lobos pelo simples fato de eles me lembrarem cachorros, e só por isso quero ler esse livro.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Eduarda, tudo bem?
      Então, é meio diferente, sabe? Você meio que sabe o que esperar de pessoas nas histórias, mas animais não. A Kathryn é boa nisso, porque ela consegue trazer a essência do animal, mas ao mesmo tempo ela dá uma inteligência diferente pra eles, como se você parasse e pensasse: será que eles pensam isso mesmo?
      Espero que aproveite a leitura, se um dia der chance ao livro. E veja o filme, é meio diferente dos livros, mas eu lembro de me sentir bem envolvida assistindo>
      Grande abraço!

  2. Luciana Campos disse:

    Oi, Laryssa!
    Não me interessei muito pela história, acho que cairia bem ler pra uma criança/adolescente, já que eu pelo menos não me vejo entusiasmada com livros em que animais falam e tudo mais… Acho que a minha época para livros assim já passou.

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi!
      Eu entendo, totalmente. Acho que crianças tiram mais proveito que eu, com certeza. Esse é o tipo de livro que pode inspirar muitas delas a começar a ter gosto pela leitura. Pra mim ainda funciona, eu não lia muito quando era criança, então acabei não aproveitando muito aquela época. ):

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