Não tive nenhum prazer em conhecê-los, Evandro Affonso Ferreira

Olá, leitores! Hoje vim lhes falar sobre minhas impressões quanto ao livro “Não tive nenhum prazer em conhecê-los”. Meu primeiro contato com Evandro Affonso Ferreira foi através de uma entrevista. De cara, me identifiquei muito com o escritor, ele dizia na entrevista que sempre anda com um caderninho e com uma canetinha de 2 reais e eu também tenho o costume de andar acompanhada desses cadernos e canetas para onde vou, afinal, inspiração é uma criatura independente, surge quando quer e vai embora quando quer, você é quem deve estar preparado.

Depois de alguns meses, eu tive a oportunidade de solicitar o mais novo livro do Evandro, eu o li com uma curiosidade incomum, me identifiquei em muitas partes durante a leitura e minhas expectativas foram supridas. “Não tive nenhum prazer em conhecê-los” é um romance composto por fragmentos intensos que constroem uma incrível obra. Quer saber mais sobre? Continue lendo!

Neste livro, conhecemos um homem de 90 anos, que vive em São Paulo, cidade nomeada por ele como “cidade apressurada”. Basicamente, ele vai narrar sua vida cotidiana através de retalhos, textos pequenos, frases pequenas. Parece uma coisa simples, superficial, mas não é assim. Temos esse narrador que perdeu a pessoa que amava e desde então não se relaciona mais com ninguém, um narrador que tem uma visão pessimista a respeito de tudo que há em sua volta e que escreve sobre o que sente e o que vê.

“Caminho mais uma vez pelas avenidas desta cidade apressurada, cuja atmosfera permanece suja. Possivelmente procuro tempo todo o imprevisto. Caminho – eu, melancolia e seus apetrechos sombrios. Meu semblante, este, sim, continua resignado. […]”

E ele não só escreve sobre assuntos cotidianos, mas sobre lembranças, sobre sua juventude, sobre sua amada, suas poucas aventuras, sua insatisfação e sobre a própria existência. Mostrando sua perspectiva sobre assuntos como morte, desconfortos, angústia e envelhecimento. Porém, não é só isso e ponto. O personagem consegue transmitir sentimentos e visões que são difíceis de encarar, afinal, são ângulos pessimistas e até realistas. Esses escritos são abstrações profundas sobre a realidade, sobre coisas que nós vemos e sentimos, como leitores, seres sensíveis e pensantes.

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Ele também faz uso de ideias de escritores/pensadores antigos para, de certa forma, exemplificar sua condição, ele sempre busca citar esses autores e acaba despertando o interesse do leitor para saber a quem ele faz menção. O protagonista também vagueia entre memórias que ele tem da mulher que amou e contestações sobre seu estado atual. Redigindo sobre cenas cotidianas até as suas próprias ideias sobre romances que ainda pretende escrever e publicar.

“Curiosidade: Qual será o dia da semana que me negará para sempre dia seguinte?”

Evandro Affonso Ferreira é um escritor consagrado, já ganhou vários prêmios, inclusive com seus outros livros Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus” e “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam”. Em “Não tive nenhum prazer em conhecê-los”, o escritor conseguiu passar de forma muito poética e crua a angústia de um homem no fim de sua vida.

Minha opinião

Como falei no início da resenha, me surpreendi bastante com esse livro, porque eu não imaginava que iria me identificar tanto com o livro em um nível quase inacreditável. Foi engraçado eu, aos meus dezenove anos, me identificar com um personagem de noventa? Sim, foi. Pareceu-me várias vezes que eu mesma escreveria aquilo, não pela qualidade literária, pois sei que talvez nunca chegarei a esse nível, mas pela sensibilidade.

“Hoje sei que a dor da solidão constrange mais que odor de velhice.”

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A leitura não é difícil, apesar d’eu ter encontrado várias palavrinhas que não faziam parte do meu vocabulário, a mensagem que o autor quis transmitir pelos trechos e fragmentos foi transmitida com sucesso. Foi incrível perceber o quanto o Evandro brinca com as palavras e faz delas o seu veículo de transformação do que está dentro pra fora, pra algo mais palpável, mais visível.

Se você gosta de literatura brasileira e quer se arriscar a mergulhar em um livro profundo que trata de temas cotidianos de forma simples, densa e que te faz pensar sobre diversos assuntos a respeito da vida, este livro é pra você.

Quem se interessar pode assistir a essa entrevista do Evandro e conhecer mais sobre o autor, tenho certeza que não irá se arrepender.

capa

 

Não tive nenhum prazer em conhecê-los
Evandro Affonso Ferreira
Editora Record
367 páginas
Lançamento: 2016
Comprar (Amazon – R$ 39.90)

 

 

 

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Amanda Pires

Amanda desde 1997. Estudante de Letras - Inglês. Apaixonada por músicas tristes e sebos. Escrevo sobre o que leio, leio sobre o impossível.

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4 Discussion to this post

  1. Luciana Campos disse:

    Oi, Amanda!
    Achei realmente bem diferente já pelo título, e me parece que o personagem é bem amargurado pela vida e por ter perdido seu grande amor. Achei bem triste, e por essa pegada mais pro lado da poesia eu acabei não me interessando. Mas pelos quotes dá pra notar o cuidado que o autor teve na escolha das palavras, transmitindo intensamente o que o personagem sentia.

  2. camila rosa disse:

    Ola, tudo bom?
    Eu não conhecia o autor nem o livro, parece ser bom, achei bem interessante o modo utilizado para escreve-lo e termos um protagonista de 90 anos, suas lembranças e a condição que se encontra agora, achei bem bacana, irei procurar saber mais.
    Beijos *-*

  3. suzana cariri disse:

    Oi!
    Fiquei curiosa sobre esse livro. É mesmo bem legal quando uma leitura acaba nos surpreendendo positivamente e achei interessante essa identificação com um personagem que aparentemente parece tão diferente, ainda não conhecia o Evandro mas depois dessa resenha fiquei bem curiosa para pode ler algo dele !!

  4. micaela gomes disse:

    Se alguém falar de livros nacionais eu já pergunto “aonde? quero!” pois eu acho super importante dar uma forcinha pra nossa literatura. Confesso que não conhecia o autor e fique encantada com o modo que descreveu a obra.

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