O último adeus, Cynthia Hand

Ty, o irmão de Alexis morreu, deixando uma série de questões para sua família lidar. O pior é que ela, Lex, não consegue mais chorar essa perda desde o enterro. A terapia, ideia de sua mãe, deveria ajudar, mas não é nada fácil para ela falar sobre o suicídio e suas causas. Não é fácil ver sua mãe chorar a todo momento, até sem perceber, enquanto toma taça atrás de taça de vinho. E não é fácil falar sobre o pai, que se afastou com o divórcio e não foi capaz de reparar os problemas e conquistar novamente seu lugar cativo.

Ty era bom. Ou seja: ele não merecia ser punido por seu crime. Não estava em seu juízo perfeito. Não estava pensando com clareza. Não queria fazer o que fez.

Como se não bastasse, Lex sente o cheiro da colônia de seu irmão, forte e pungente, clamando por atenção. E, ainda que não haja explicação racional, Alexis parece vê-lo.

Alexis Riggs tinha uma vida tranquila, ao menos dentro do que julgava possível. Apesar de seus pais terem se separado de uma maneira um tanto quanto traumática, ela lidou com os desdobramentos da melhor forma que pôde e seguiu com sua vida adiante. Com o apoio da mãe, os jantares de terça feira com o pai e o irmão – onde ele a encorajava a se empenhar para chegar longe na vida – e seus amigos nerds que formavam o grupo que a acolhia na escola, sua meta ao longe parecia cada vez mais possível, ela iria sim cursar matemática no MIT.

Ty, seu irmão, lidava com as coisas de uma forma diferente. Ele era alegre e engraçado, trazendo bom humor àqueles a sua volta. Sua primeira tentativa de suicídio – ingerindo uma quantidade absurda de remédio embaixo do nariz de sua mãe – logo após o divórcio, deixou todos assustados. Naquele momento, sem saber muito mais o que fazer, Lex o fez prometer que se a ideia voltasse a passar por sua cabeça, ele faria um esforço para conversar com ela, porque ela estaria ali para ele. Naquele tempo, Lex não entendeu os motivos de Ty, e ela pensou que conseguiria, que não perderia seu irmão assim.

Quando sua mãe decide que é uma boa ideia que Lex vá a terapia, porque parece não estar sendo muito capaz de superar os acontecimentos sozinha – a ironia da situação não passou despercebida – a garota é reticente a ideia do tratamento, porém sente o buraco crescendo dentro de si e se fecha ainda mais com seus sentimentos. Dave, o terapeuta, sugere que ela escreva um diário para conseguir falar sobre Ty, sobre como ele era, sobre a última vez que ela o viu feliz, sobre como era a vida com ele, para que talvez seja mais fácil falar sobre a vida sem ele.

O buraco é Ty, acho.
O buraco é algo como o pesar.

Intercalando a história linear de como Lex agiu, como seus amigos tentaram ajuda-la. Como toda a escola e os conhecidos, com seus olhares de pena, as palavras de compaixão e como logo o tempo transforma tudo em uma certa falta de paciência de alguns, chegando levar a Alexis o estigma de ser a irmã do garoto que suicidou.

Alexis escreve em seu diário, a priori a contragosto, suas memórias. Algumas vem fácil, porque é gostoso lembrar, com o significado claro como água. Outras, já mais difíceis e profundas, pedem seu tempo para serem escritas. O destinatário lhe parece incerto, mas o que Lex entende com o passar do tempo é que precisa buscar o perdão.

Mas não encontro palavras.
As palavras nunca foram meu forte.

    Minha opinião

Comecei esse livro sem expectativas, sabendo bem pouco sobre do que se tratava. Gosto de fazer isso de vez em quando, sinto minha leitura mais pura, tendenciando muito pouco para a opinião de outra pessoa.

A primeiro coisa que me chamou a atenção foi como a narrativa é fluida e bem escrita. E, apesar do peso do assunto, é extremamente fácil acompanhar a leitura e os fatos, que acontecem de maneira linear, quando vamos tentando entender todo o depois junto com a Alexis. É mais fácil acreditar no que está sendo dito assim, é mais fácil ter empatia com a perda e os sentimentos que ela acaba tendo. Junto a isso, é uma garota de 18 anos, que tinha outros problemas, e de repente se sente no meio de um caos, toda essa forma de apresentar nos traz uma personagem principal bem construída nos parâmetros do que se entende por adolescente.

Balancei a cabeça. É confuso demais, difícil demais pensar nas possibilidades. Tenho minha lista de possibilidades, não posso lidar com a do meu pai.

A autora, Cynthia Hand, divide conosco no final do livro sobre ter perdido o irmão para o suicídio, deixando bem claro que ela não transcreveu sua história por meio de Alexis. Acho que ela queria deixar uma mensagem. A depressão é um Transtorno mental e comportamental, ela não deve ser ignorada ou subestimada, ela tem tratamento junto ao acompanhamento médico. Os sinais de alerta de um possível suicídio podem parecer sutis, mas faça o possível para ajudar na prevenção.

Dave mexe na barba, que é o que faz quando está prestes a dizer algo incrivelmente profundo. “O perdão é confuso, Alexis, porque, no fim, tem mais a ver com você do que com a pessoa que está sendo perdoada.

O setembro amarelo acabou de passar, mas a ideia pode seguir conosco por todos os meses. Se conscientize, procure saber mais, às vezes você pode ajudar alguém, às vezes é você quem precisa de ajuda. Não desista, tem alguém por aí pra te ouvir. Aqui o site se quiser saber mais sobre o evento.

Isso vai parecer meio lugar-comum, acho, mas nunca se sabe quando vai ser a última vez. Que você abraça alguém. Que você beija. Que você se despede.

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O Último Adeus (The Last Time We Say Goodbye )
Cynthia Hand
DarkSide Books
352 páginas
Lançamento: 2016
Comprar (Amazon – R$ 29,90)
 
 
 
 

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8 Discussion to this post

  1. Luciana Campos disse:

    Oi, Laryssa!
    Só lendo a sua resenha já deu pra sentir que o clima do livro é bem triste, nos fazendo entrar na pele da Alexis e sofrer a perda do irmão também. Achei chato isso de os colegas começarem a perder a paciência com ela, o que aconteceu foi muito sério e não se esquece uma pessoa amada assim da noite pro dia.
    O livro não me deixou empolgada (com essa história, não tem como também), mas imagino que pra mim seria uma leitura descompromissada muito boa também.

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Luciana, tudo bom?

      O livro é triste bem por isso mesmo, porque a gente segue o caminho da Lex e vai entendendo as coisas junto com ela, mesmo que seja extremamente difícil se colocar no lugar dela. Os amigos em si não perdem a paciência de uma forma negativa, eles só param se insistir em ajudar, porque a Lex meio que não aceita. Acho que a faca acaba tendo dois gumes mesmo.

      HAHA realmente, é difícil se empolgar em ler algo triste, mas acho a mensagem muito bonita!

  2. camila rosa disse:

    Nossa a historia do livro é tensa né, não é fácil lidar com esse tipo de situação, pretendo ler o livro assim que for possível, e realmente acho importante nos conscientizarmos sobre a situação do suicídio, temos que nos esforçarmos para perceber os sinais nas pessoas que amamos, tenho certeza de que O ultimo adeus é um livro que vai me emocionar muito.
    Beijos *-*

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Camila,

      É tensa, mas acho que a autora conseguiu trabalhar bem, deixou a situação o mais crível possível, sabe? Acho que dá pra aprender bem, pra criar empatia. Não consigo imaginar o lado do irmão, do antes, mas lendo livros assim, como você disse, talvez a gente se ligue mais nos sinais nas pessoas que amamos.

  3. suzana cariri disse:

    Oi!
    Já tinha visto esse livro antes e pela sinopse achando a historia interessante, mas lendo a resenha vi que esse não é um livro que iria gostar, mesmo tendo a narrativa envolvente não foi uma historia que me chamou atenção !!

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Suzana,

      Ah, acontece! Não é todo livro que nos chama, quem sabe um dia você sinta vontade.

  4. micaela gomes disse:

    Acho super válido o que a autora quis passar com tudo isso que é a depressão/suicido. Já tinha visto esse livro por ai e não fazia ideia do que se tratava, as vezes é bom ler livros com esse teor.

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Micaela,

      Também acho super válido ler livros com essa temática, é bom sair um pouco da zona de conforto e ler livros que nos fazer refletir, né? Mesmo que não seja uma leitura exatamente feliz, acho que o papel dos livros acaba sendo esse, de nos colocar em lugares que não podemos/queremos ir.

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