As Perguntas Que Não Quero Fazer, Kate de Goldi

Frankie tem 12 anos – faltam alguns meses para completar seus esperados 13 anos – e muita responsabilidade em suas costas. Sua família, composta por Mamãe, Tio George, Jordana e Louie, pareciam não entender as necessidades básicas para o pleno funcionamento de uma casa e muito menos o motivo de Frankie levar tudo aquilo tão a sério.

14 de fevereiro tinha tudo para ser uma terça-feira normal na vida de Frankie Parsons, a não ser é claro por começar de uma forma particularmente errada em sua opinião. Por exemplo, não havia ração para Miss Caloria, a gata da família, o leite da casa acabou, e ele teve que se contentar com torradas e para piorar, se é que é possível, não havia dinheiro em nenhum lugar suficiente para sua passagem de ônibus. Tudo isso, todo esse descontrole, gerava uma irritação tão grande no garoto que ele não sabia se conseguia lidar.

(…) Foi realmente uma decepção imensa, pensou Frankie, o modo como todos os pequenos detalhes da história mágica foram finalmente esmagados pelo peso da realidade.

No caminho para o ponto de ônibus Frankie encontra seu melhor amigo, Gigs, sempre preparado para suprir a necessidade de moedas do amigo para o passe. Logo, eles começam sua intricada rotina, uma série de ações e movimentos que só os dois sabem, interagindo com cães, gatos, caixas de correio e chegando a palavra-chave de Cassino – cada dia uma diferente – para entrar no ônibus. Eles seguiram o roteiro estabelecido até chegar ao terminal central, onde uma estranha garota de dreads e piercing no nariz senta-se perto deles e começa a bagunçar tudo o que eles orgulhosamente construíram por anos.

Sidney, a garota, leva uma vida que lhes parece muito fora do convencional. A começar pelo visual, diferente de tudo o que conheciam, o sotaque acentuado, a maneira despojada que se porta e o fato de preferir um bom jogo de críquete na hora do intervalo à passar conversando com as outras meninas de sua idade. Outra coisa que chama a atenção de Frankie e irrita bastante Gigs no primeiro momento – logo sendo conquistado pelo talento de Sidney em críquete, o melhor esperto do mundo – é que ela não se refreia em sua curiosidade: se há alguma pergunta em sua mente, ela será proferida por seus lábios.

(…) ele nunca gostava de pensar na palavra que pairava lá, que dirá pronunciá-la. Havia tantas delas, dessas palavras que ele não gostava de pensar ou dizer.

O Sr. A., professor do 9º ano propõe então um trabalho em dupla para seus alunos, mas dessa vez eles devem escolher parceiros com os quais não estão acostumado e é assim que Frankie é convidado a se juntar a Sidney em uma história que ela escreverá e ele usará seus talentos para ilustrar, e dessa forma Frankie é levado a pensar sobre coisas que não queria porque a convivência com a família Parsons gera perguntas que todos parecem empurrar para o fundo da mente, ainda que a vozinha na mente de Frankie traga o que há de pior à tona.

Sidney e sua perguntas descabidas incitam em Frankie a vontade de entender os porquês das coisas, porque sua mãe não sai de casa, porque Jordana e Louie reagem de forma dispersa com assuntos referentes a isso e principalmente o porque de ele ser como é: cheio de medos de tudo no mundo, se sentindo responsável por todos e sentindo-se prestes a um colapso nervoso ao menor sinal de qualquer falta de controle que possa ter em seus dias.

“Então, porque não sai à noite?”, Frankie queria perguntar. Só ali no quintal. Para olhar as estrelas. Admirar a Lua cheia. Ultimamente, imaginava essas perguntas rebeldes saindo de sua boca alguma hora, sendo pronunciadas em voz alta sem querer. Eram perguntas rabugentas, insistentes, como os sapos que saiam da boca da princesa no conto infantil.

    Minha opinião

Kate de Goldi tem uma narrativa muito bonita, muito carinhosa com a história que quer contar sobre Frankie. A temática pede uma sutileza e um cuidado muito especial. O livro em si é sobre doenças mentais, e mesmo que seja narrado em terceira pessoa, é sob o ponto de vista de Frankie, então vamos acompanhando o quanto ele sabe e a forma como ele descobre as coisas. Para um garoto de 12 anos, algumas coisas parecem mais normais do que deveriam de acordo com o que as outras crianças da mesma idade passam, então as diferenças são muito bem trabalhadas no decorrer do livro, porque é Sidney, com suas inúmeras perguntas, que faz Frankie ir atrás para saber mais.

Achei um livro doce, por vezes até necessário. Doenças mentais, seja lá qual for, estão mais presentes em nossa vida do que imaginamos, e é notório que cada um reage e se adapta a ela de uma forma muito particular, acho que a Kate foi muito bem sucedida em passar isso, é um livro para crianças, mas é um livro para todos. Ela é neozelandesa, fiquei tentando me situar nas suas descrições de clima, local e cultura, porque é diferente do que conheço de outros países pela escrita.

Os personagens são bem reais, pode ser sua tia ali, Frankie pode ser seu irmão ou aquele seu primo um pouco distante. São personagens bem construídos que contam uma história da vida, que você pode até questionar, mas te digo, é mais verossímil do que que imaginamos. As pessoas se divertem, fazem piadas, mas estão longe de ter uma vida perfeita, e é bom ler esse tipo de coisa para que nos reconheçamos ali.

E sobre o projeto gráfico, eu sempre acho que a Fundamento tem um capricho, o miolo é muito confortável de ler. E são detalhes como os das fotos abaixo que deixam o clima do livro ainda mais gostoso.

 

 
As Perguntas Que Não Quero Fazer (The 10pm Question)
Kate de Goldi
Fundamento
232 páginas
Lançamento: 2015
Comprar (Loja da editora – R$ 27,16 em 24/02/2017)
 
 
 
 

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* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE FEVEREIRO*

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18 Discussion to this post

  1. Larissa Costa disse:

    Laryssa e seus posts que apresentam livros que dão tiro no coração né!
    Gostei bastante do enredo e da forma com que você fala ser o livro. Até achei um pouco parecido com o “Extraordinário”, mas um pouco mais sobre descobertas do que sobre superação 🙂
    Beijos

    • Laryssa Tavares disse:

      Larissa, eu nunca li “Extraordinário”, não tenho como comparar, mas sei que é muito elogiado.
      Normalmente quando o livro é mais sobre o ponto de vista de uma criança, eu sinto saudade da inocência.
      Beijos.

  2. thaynara ribeiro disse:

    Simplesmente amei!!
    Sou fascinada por livros que tratem de problemas mentais/psicológicos e esse me deixou mais do que curiosa, ainda mais por ser narrado segundo uma visão infantil

    • Laryssa Tavares disse:

      Thaynara, eu também gosto muito de livros sobre o tema, principalmente quando a gente percebe o cuidado que o autor tem durante a narrativa. Exige uma delicadeza e pesquisa grande.

  3. Lara Caroline disse:

    Oi Laryssa, tudo bem?
    Sempre me interesso por histórias com esta temática. Fiquei mais do que curiosa para conhecer a escrita da autora e a este livro. A edição está belissima com essas ilustrações fofas nas páginas.
    Beijos

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Lara,
      olha, achei a escrita da autora diferente das coisas que costumo ler. A influência geográfica e cultural faz mesmo sentido nisso. A edição está um amor mesmo!

  4. Alison disse:

    Olá, livros infantis são os que mais tem preciosos ensinamentos. Com uma trama cativante e simples a autora escreveu uma história que muitos vão identificar -se com ela. Beijos.

    • Laryssa Tavares disse:

      Isso é verdade. Às vezes temos o problema de subestimar o que livros infantis tem a dizer, né? Beijos

  5. Adriana Holanda Tavares disse:

    Eu adoro livros cuja narração é do ponto de vista de uma criança. Elas são mesmo mais sensíveis e prestam atenção em coisas simples, que muitas vezes os adultos ignoram.
    Frankie parece ser um ótimo garoto e com muita responsabilidade para seus poucos 12 anos. Já fiquei curiosa para saber o porquê da sua mãe não sair de casa rs
    Adorei a capa do livro. É linda!

    • Laryssa Tavares disse:

      Frankie é um personagem muito amorzinho, muito cativante, e quando a gente tenta se colocar no lugar dele, percebe de fato o peso do mundo nas costas dele. É difícil, é intenso. A autora acertou muito na mão ao fazê-lo.

  6. Oi Laryssa, tudo bem?
    O título do livro por si só já é intrigante, e depois de ler sua resenha, fiquei super curiosa quanto a obra. Eu gosto muito de livros que abordam esses assuntos relacionados a doenças mentais. Acho um tema super válido e necessário até. Esse livro com certeza já entrou para minha lista de leitura desse ano.
    Beijokas

    • Laryssa Tavares disse:

      Oi Priscila, tudo bom?
      Acho necessário também, esses livros podem nos ajudar a comunicar e passar mensagens que podemos ter problemas em buscar em livros didáticos, né?
      Beijos.

  7. Clayci disse:

    Lari eu gosto muito do cuidado da editora com os livros.
    Ainda não conhecia este e achei que é uma leitura bem gostosa e leve.
    Fiquei com vontade de ler <3

    Beijos

  8. janaina silva disse:

    Quando os livros nos trazem os questionamentos de uma criança, é sempre muito emocionante.Principalmente pela história nos mostrar um problema sério sobre doenças mentais.
    E essa nova “amiga”,acredito eu, fará o Frankie refletir muito.

    A capa é bem singela e expressiva!

    Gostei!

    • Laryssa Tavares disse:

      Exatamente, acho que foi interessante mostrar as coisas como o Frankie descobrindo tudo. Acompanhar o desenvolver dele é algo interessante.

  9. Mirian Kely disse:

    A historia me parece tão fofa, abordando o tema doenças mentais que é algo que está presente em nosso dia a dia com pessoas ao nosso redor e com esse livro é bom para que possamos entender.

    • Laryssa Tavares disse:

      Sim, é importante que os jovens consigam ter a capacidade de entender que existam essas doenças, que elas estão cada vez mais presentes e que existem formas de lidar com isso. Empatia é tudo.

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