Mais do que isso, Patrick Ness

Seth está se afogando. Ele sente as ondas fortes, congelantes, vencendo a batalha que seu corpo inutilmente tenta travar. Há momentos, lapsos de esperança, em que ele ainda pensa ter controle, pensa que pode vencer e remediar o arrependimento que brota dentro de si por ter entrado no mar. Mas esses momentos vão, o mar é muito forte e cheio de vontade e quando menos, ele sente o escuro se aproximar junto a uma certeza: ele morreu.

Tão mais do que ele um dia conseguirá ver. Tão mais do que ele um dia conseguirá alcançar. Tanto que só de passar os olhos ele já sabe que está para sempre fora do seu alcance.

O garoto acorda deitado no concreto, com parte de seu corpo nu e o resto apenas coberto por uma espécie de bandagens que mal cobrem qualquer coisa. Ele se sente fraco, desorientado, como se não soubesse muito bem usar seus músculos e mal se lembrasse de quem é. Na verdade, ele tem certa dificuldade, até que seu nome brota em sua cabeça: Seth.

O lugar começa a tomar forma a sua volta, ele começa apreender os detalhes e percebe que está em sua antiga casa, àquela na Inglaterra, onde ele cresceu até antes de se mudar para os EUA, a casa que deixa seu estômago embrulhado com tantas lembranças ruins. Tudo parece vazio, descuidado, cheio de poeira e com as plantas mais altas do que ele. Tudo parece abandonado, como se ele estivesse na terra sozinho. E é aí, como ele juntando forças para se recuperar, e com a fome dando ímpeto a ele, que ele parte em pequenas excursões, aumentando cada vez mais suas área de busca.

– As pessoas pedem pelo que precisam de maneiras diferentes. Às vezes, pedem sem nem mesmo pedir. Era o que minha mãe costumava dizer.

Ele descobre o antigo supermercado de seu bairro, com comida enlatada quase comestível e água. Descobre a loja de produtos esportivos, com roupas quase boas para ele, lanternas e o mesmo material metálico – fita condutora – que encontrou por todo seu corpo. Mesmo que precariamente, ele nota, o universo parece dar meios para que ele sobreviva.

Mas sempre que dorme, porque o sono vem pesado, as lembranças tomam sua mente de forma muito intensa, como se ele as estivesse revivendo: o que aconteceu com seu irmão e por isso a forma como seus pais acabam o tratando, a forma como ele conduz sua vida, os seus amigos H, Monica e Gudmund – principalmente Gudmund. Tudo vai voltando, e volta de forma mais pesada, como se não bastasse ter vivido aquilo tudo uma vez. Ele está prestes a dar um fim em tudo quando descobre que pode não estar tão sozinho assim.

(…) Pegamos eventos à toa e os colocamos juntos em um padrão para que possamos nos confortar com uma história, não importa quanto aquilo não seja, obviamente, verdade. (…) Temos que mentir para nós mesmos para viver. Senão, ficaríamos loucos.

    Minha opinião

Esse foi meu primeiro contato com Patrick Ness, eu não li nenhum outro livro e nem vi o filme que saiu recentemente Sete Minutos depois da Meia-Noite. Ouvi falar tanto sobre ele, sobre sua qualidade e como era bom, que não teve como não criar expectativas bem altas. Acho que esse foi o problema. Esperei demais.

A narrativa, em terceira pessoa, é ótima de ler, foi seguindo tão fluido, ao acabar um capítulo (que são curtos, por sinal) você já quer pular para o outro e pro outro e pro outro, tudo cheio de plot twist do jeito que a gente gosta. A história passa no tempo presente e com flashbacks, que é quando conhecemos a história e vida de Seth, como ele chegou ali e entendemos um pouco dos porquês. E, é claro, a forma como as coisas são descritas, de forma geral, são bem vivas: eu senti a agonia que Seth sentiu ao se afogar.

Eu tenho um pouco de problema com finais que deixam tudo aberto demais, tive alguns problemas com algumas soluções do livro, mas acredito que isso foi algo pessoal, coisas que não deram certo para mim até mesmo pelo momento que estou passando. Não posso falar como se o livro não tivesse qualidade, como se o Patrick não tivesse criado um ambiente fácil de se inserir. E, sem dúvidas, não posso deixar de dizer que os personagens, principalmente pela fortes características humanas que nos são apresentadas, passam por nós sem deixar um pouquinho deles.

 
Título: Mais do que isso (More than this)
Autora: Patrick Ness
Editora: Novo Conceito
Número de páginas: 430
Lançamento: 2017
Comprar (Amazon – R$ 31.90 em 26/05/2017)
 
 
 

* Este livro foi enviado pela editora do mesmo. A política do blog é de sempre fazer resenhas sinceras, independentemente de como o livro chegou até nós. A opinião relatada aqui veio da experiência literária da autora do post e não sofreu nenhuma influência que não tenha sido explicitada na resenha.

 
 
 

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4 Discussion to this post

  1. Larissa Costa disse:

    No início da resenha eu já senti a agonia do afogamento!
    Sempre que leio algo com bastante especificações eu sinto tudo! Quando percebo já estou segurando a respiração faz um tempão.
    Achei bem intenso o livro e parece ser recheado de traumas e um passado sombrio.
    Beijos 😘

    • Laryssa Tavares disse:

      Tive uma relação de amor e ódio com o livro, porque eu meio que não concordei ou não entendi a necessidade de muitas coisas. Acho que preciso ler mais coisas do autor. hehe
      Beijos

  2. Janaina silva disse:

    Confesso que fiquei confusa sobre o gênero do livro. Talvez aí se encontre o grande mistério de tudo.
    Não sei se eu gostaria muito do livro. Mas se eu tiver uma oportunidade, pretendo lê-lo e conhecer a história.

    • Laryssa Tavares disse:

      Olha, eu acabei o livro sem estar muito certa do que sentir. É uma leitura interessante, sem dúvida, mas acho que não agrada todo mundo, sabe?

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