Órfã #8 – Kim Van Alkemade

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Este livro conta a história de Rachel Rabinowitz que muito nova foi levada à um orfanato onde eram feitos testes em crianças para diversas doenças. O ano era 1919 e Rachel foi submetida a vários exames de Raio X experimentais que marcariam sua vida para sempre. A responsável por esses testes era Dra. Mildred Solomon, uma jovem médica que buscava alcançar seu lugar junto aos médicos homens. Esse acontecimento marca a vida de Rachel para sempre e o reencontro, anos depois, com Dra. Solomon, faz com que diversas questões apareçam para ela e a maneira como lidará com tudo isso é decisiva nesse romance.

O livro começa com Rachel pequena, ainda na presença de seus pais e de seu irmão Sam, que tem papel decisivo na história dela. A narrativa perpassa pelo cortiço em que viviam, sua mãe cuidando da casa e dos hóspedes deles e seu pai trabalhando em uma fábrica têxtil. Até que um dia seu pai esquece o almoço em casa e sua mãe decide ir com Rachel até a fábrica em que ele trabalhava, ao chegar lá descobrem coisas desagradáveis sobre o pai, e ao chegar em casa os pais se enfrentam em uma briga, que leva ao triste desfecho em que Rachel e Sam se tornam órfãos.

Rachel ouvindo os pais gritando e brigando, entrou correndo na cozinha. Em sua pressa, chutou a pilha de botões. Os discos minúsculos se espalharam pelo chão da cozinha. Ela viu sangue no braço do pai, a faca na mão erguida da mãe. Seu lábio tremeu, e um uivo irrompeu de sua garganta.

Já no segundo capítulo vemos uma Rachel adulta, enfermeira, que trabalha em um lar para idosos, e satisfeita com a vida que construiu. Sabemos um pouco sobre sua jornada de trabalho, sobre um paciente específico que faleceu, e logo surge para substituí-lo no lar, uma senhora chamada Mildred Solomon, que está sendo tratada com altas doses de morfina e que precisa recebê-las em horários específicos. Logo que Rachel entra em contato com ela, algo em sua memória começa a despertar, e ela começa a se lembrar de todas as experiências vividas e que se tornam vívidas em sua lembrança.

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Deve ter sido o calor, porque de repente fiquei tonta. Meus olhos me pregaram uma peça, estendendo o corredor como um espelho de casa de espelhos. Segurei a maca para me equilibrar, respirei fundo algumas vezes até o corredor recuperar a forma normal. Mesmo assim, enquanto empurrava Mildred Solomon para o quarto, tinha a sensação estranha de ir no sentido errado de uma escada rolante em movimento.

No desenrolar do livro os capítulos ímpares contam a história de Rachel ainda criança, e tudo o que aconteceu em sua vida, e os capítulos pares, que são narrados em primeira pessoa, mostram Rachel já adulta e todo o conflito ético que ela passa ao ter que lidar com Mildred. Enquanto criança vemos uma Rachel frágil e impotente frente a tantas coisas que é submetida, como a morte dos pais e o afastamento do irmão. Irmão este que tem papel importante por ser o familiar mais próximo dela que estava vivo. Quando Rachel sai do abrigo para crianças e vai para o orfanato ela reencontra Sam e o relacionamento entre eles a faz crer novamente em uma família… Não por muito tempo.

Havia dois meninos sentados lado a lado no banco comprido. Os dois meninos olhavam pra ela, um com olhos azuis brilhantes, o outro com os olhos cinzas tão ferozes quanto nuvens de tempestade. Os olhos azuis brilhantes olharam direto pra ela, erguendo-se nos cantos com um sorriso. Rachel se encolheu junto da parede e se aproximou aos poucos, tentando decidir qual dos dois era o irmão.

    Minha opinião

Preciso dizer que desde que eu entrei no blog esse é o livro mais maravilhoso que eu li. Mais maravilhoso porque é bem escrito, a história é envolvente, tem uma narrativa boa de ler, sem ser simplista, sabe?! A escrita me cativou mesmo! Adoro a temática da época de guerras, os desafios das minorias sendo retratados, as desvantagens de ser uma mulher, de ser uma criança, se der uma mulher, criança e judia. Enfim! Tantas questões! Se você adora romances bem escritos, esse é livro certo pra você. Quando eu li a sinopse eu achei que seria algo clichê, mas uou! Nada disso. Um romance muito bem escrito, muito bem elaborado e os conflitos dos personagens nos fazem pensar bastante sobre várias questões. A Rachel me cativou de cara, e foi impossível não compadecer por tudo o que ela viveu.

Acordei com um grito entalado, erguendo-me rapidamente na cama, o coração batendo forte no peito. Esfreguei as mãos juntas, os dedos passando sobre a pele lisa e uniforme. Sem ninguém para me distrair ou confortar, fiquei obcecada pelo sonho, incapaz de dar algum sentido às imagens horríveis. Olhei para o relógio, eram quase cinco. Sabia que nunca conseguiria voltar a dormir, por isso saí da cama, preparei um bule de café, tomei uma ducha rápida enquanto ele estava passando.

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Como tudo na vida, toda história tem duas versões. Acredito que a autora foi extremamente certeira ao contar a história da infância de Rachel em terceira pessoa e seus dias “atuais” em primeira. Isso porque sua infância perpassava pela história de outras pessoas, uma delas Mildred Solomon, a médica que a submeteu a exames de raio x. Desde o início já a encarei como vilã, como uma médica terrível e sem coração, afinal, quem faz isso com crianças? Sim, submeter crianças à exames de raio x que teriam efeitos colaterais é um ato de vilania, mas dra. Solomon queria ter seu lugar nas pesquisas médicas, e para a mulher o caminho sempre foi duas vezes mais difícil. Outros médicos também faziam experimentos nas crianças e eles não foram encarados como vilões. Submeter crianças à procedimentos é horrível, e sabemos disso com a medicina moderna, mas infelizmente era algo que acontecia, e autora comprova isso com pesquisas históricas. O que eu quero dizer é: ninguém é 100% vilão de tudo. Porém, eu não sou Rachel, e ela tem todo o direito de encarar essa médica como sua vilã.

Se Mildred Solomon tivesse escolhido aquele momento para me oferecer o menor gesto de simpatia, um toque de carinho, eu teria me derretido em lágrimas em seus braços enrugados, a enchido de analgésicos, lhe servido pudim de chocolate em toda refeição. Tudo o eu sempre quisera daquela mulher, percebi, era um leve eco de amor materno. Será que ela não podia ver isso?

Preciso comentar sobre o final. Quando as páginas do livro foram acabando e eu sem saber o desfecho da historia um mix de emoções se instaurou em mim. Alegria de poder imaginar o desfecho de Rachel como eu bem quisesse e frustração por não saber o desfecho de Rachel, sua expectativas foram conquistadas ou não? Seu mundo continuou como era ou mudou completamente? Ai! Se eu disser mais que isso darei spoilers, então por favor leiam esse livro E VAMOS COMENTAR SOBRE ELE!

O planeta girou na direção do sol como sempre faz. Deitamos na areia enquanto as cores tomavam o céu: primeiro rosa, depois púrpura e, por fim, azul.

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Título: Órfã #8 (Orphan #8)
Autor: Kim van Alkemade
Editora: Rocco
Número de páginas: 329
Lançamento: 2017
Comprar (https://goo.gl/6jhNdt – R$ 42,92 )
 
 
 
 

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* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE JUNHO *

Isabela Tavares

Leitora desde muito cedo, carrego comigo as inspirações de menina sonhadora com um quê de mulher que não acredita em tudo que lê. Prefiro romances pela possibilidade de me apaixonar por personagens densos e complexos.

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2 Discussion to this post

  1. Janaina silva disse:

    Olá, soube desse livro agora, aqui no blog, e já fiquei extremamente emocionada com a história super dramática da Rachel.
    Ficar órfã , juntamente com seu irmão, e ainda ser submetida a testes bem cruéis.

    E o destino ainda ” prega” uma peça em seu presente…
    Gostei bastante, e assim que der pretendo ler!

    Ah! A capa também chama a atenção.

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