Adeus, China: O último bailarino de Mao, Li Cunxin

Cunxin é o sexto filho de uma família chinesa pobre, ele tem seis irmãos e seus pais são camponeses. Seus pais se casam no pós-Segunda Guerra Mundial, tempo em que Mao Tsé-tung assume o poder e instaura o comunismo como o sistema governamental da China. Li nasce em uma vila em Quingdao e durante a infância e adolescência experimenta a Revolução Cultural de Mao. Mao ao mesmo tempo que salva Li da miséria e da fome, o engana e engana a toda China. Uma historia real, de uma criança camponesa que sai de sua comuna e torna-se um dos melhores bailarinos do mundo.

A infância de Cunxin foi dura, fria e difícil, ele passou por privações diárias, a família comia geralmente inhame seco e bebia vento noroeste como brinca a mãe de Li. O destino de todos os sete irmãos seria o mesmo do pai, lavrar a terra seca e quase infértil durante todo o ano e receber algo que não daria nem para comprar suas próprias roupas, realidade que a maioria da população chinesa enfrentava.

Aos onze anos ele é apontado pela professora para uma seleção, a seleção dos artistas de madame Mao. Ele finge não sentir dor durante os testes e exames, é escolhido e levado pelo governo chinês para Pequim ou Beijim para estudar integralmente na Academia de Balé da China. No começo, ele apenas chora e sente saudades de casa, da niang (mãe) e do dia (pai), com o tempo e ajuda de alguns professores começa a se apaixonar pelo balé e faz disso sua vida, orgulho e ainda a possibilidade de melhorar sua vida e de sua família.

Gostaria de ter ouvido os conselhos dos adultos. Gostaria de não ter visto aquilo. A visão por muito tempo me perseguiu em sonhos

Li tem a oportunidade de conhecer os Estados Unidos, devido ao seu desempenho esplêndido no balé é escolhido para um intercâmbio na escola Hounston Classic Ballet e a partir desta experiência sua vida se transforma novamente, além que sua técnica e estilo como dançarino melhoram de forma assustadora. A sua turma de dançarinos é a última a ser formada pelos métodos rigorosos e políticos de Mao Tsé-tung e de Madame Mao, porque em 1976, Li então está com 15 anos, Mao morre e começa um novo governo, a China então, abre as portas para o mundo ocidental.

Secretamente, fiquei com pena dos ratos que tinham perdido a comida. Afinal, eles também poderiam morrer de fome no inverno. “Mundo cruel” eu pensei, “em que crianças competiam com ratos por comida”.

Minha opinião

A história de Li é inspiradora, uma história de superação, mas não apenas de dificuldades que a vida impõe ou pelas condições sociais como a pobreza, a falta de comida e de roupas. Outras coisas também precisam ser superadas como os próprios limites, as dores, o corpo que não é flexível, as contusões e lesões e, ainda, superar os sonhos que nunca ousaram ser tão grandes. Ignorar sentimentos, sensações, saudades e focar no trabalho, na dança, no balé. A vida de Cunxin é um grande exemplo de como os bailarinos, de uma forma geral, precisam se esforçar para atingir a excelência. É claro que existem as diferenças das realidades de cada artista.

Quando chegaria o tempo de não precisarmos fugir para trabalhar no Ocidente? Até quando continuaria a repressão política e aos artistas?

Além das superações, outro ponto que despertou minha atenção foi a relação do comunismo instalado na China. Não era apenas um sistema governamental, era uma doutrina, um modo de vida imposto, uma religião e poder ler sobre um período histórico de um país pouco divulgado nas mídias é iluminador.

Mas uma coisa me deixou angustiada durante a leitura, a relação de dicotomia entre capitalismo e comunismo foi posta e sustentada o tempo todo, claro que a oposição existe, mas no livro está posta como capitalismo sendo uma coisa boa e comunismo ruim. O capitalismo, assim como o mundo ocidental foi totalmente romantizado por Cunxin, como se não Estados Unidos, símbolo do capitalismo, não houvesse seus problemas de condições sociais e raciais, como se não existisse perseguições politicas, invasão de territórios e outros enormes problemas que uma nação que se acha grande demais pode causar aos “pequenos”.

Veja, não é uma defesa ao comunismo, até porque o governo imposto por Mao era extremamente opressor e desigual (assim como o capitalismo). O que tento dizer aqui é que o comunismo, o socialismo e o capitalismo tem seus problemas, algumas enormes, intolerantes e letais e não há razões para defender um sistema politico como o salvador de toda uma humanidade, até porque o capitalismo é o grande economicamente responsável pela miséria humana.

O livro é bom, fizeram um filme com o mesmo nome, têm partes profundas, doloridas, angustiantes, a infância de Cunxin é bem detalhada, você enxerga e convive com Cunxin, mas a medida que ele cresce os detalhes diminuem. Entendo que o livro ficaria enorme se para cada ano de vida dele fosse relatado e descrito cada passo de sua vida, mas a vontade de saber mais, de ver fotos dele, da família só vai aumentando. E a vontade de ver Li Cunxin dançar? Para ninguém passar vontades, deixo aqui um solo e um pas-du-deux de Cunxin para vocês.

Pas-du-deux

Solo de Cunxin


Título: Adeus, China (Mao’s last dancer)
Autor: Li Cunxin
Editora: Fundamento
Número de páginas: 408
Lançamento: 2007
Comprar (Site da Editora – R$ 43,84)
 
 
 
 

* Este livro foi enviado pela editora do mesmo. A política do blog é de sempre fazer resenhas sinceras, independentemente de como o livro chegou até nós. A opinião relatada aqui veio da experiência literária da autora do post e não sofreu nenhuma influência que não tenha sido explicitada na resenha.

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE AGOSTO *

Jordana Barbosa

Jornalista que odeia jornais. Troco amores por torresmo. Meu nome significa água que corre e é perto da água que encontro paz.

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12 Discussion to this post

  1. Lara Caroline disse:

    Olá Jordana, tudo bem?
    Não conhecia o livro, mas tudo que tem menção ao ballet eu me interesso. Achei super tocante a história do Cuxin pelo pouco que pude perceber na sua resena. Deve ser uma história muito bonita de superação. Com relação ao elogio exagerado do capitalismo, acredito que o autor quis dizer que o capitalismo era melhor do que viver sob o regime do Mao, mas é importante abstrair porque sabemos que o capitalismo é péssimo.
    Beijos

    • Jordana Barbosa disse:

      O livro é muito tocante mesmo, super vale a pena. Tem filme também Lara, dá pra ir vendo enquanto o livro não chega 😉

  2. Janaina silva disse:

    Nossa,fiquei até emocionada em ver o Li Cunxin,dançando lindamente!
    E que história de superação!
    Viver precariamente em um país opressivo e tendo que superar seus limites .Talvez por essa razão, o Li tenha romantizado tanto o capitalismo. Pelo sofrimento dele ,de sua família e do povo em geral.

    Li sobre esse livro pela primeira vez,e gostei da história desse guerreiro.

    • Jordana Barbosa disse:

      Eu quero ver ele dançando todo dia agora e, Janaína acredita que ele dançou até os 38 anos? Parou super tarde.
      O livro é puro amor <3

  3. Pamela Liu disse:

    Oi Jordana.
    Fiquei com vontade de ver o filme depois de ler a sua resenha.
    Li e sua família passou por muitas provações. Deve ser difícil para uma criança ficar longe dos pais, seguir os esquemas rígidos dos treinos e superar as dores. Mas é algo muito bonito também.
    Provavelmente o autor romantizou o capitalismo para mostrar o contraste com o comunismo. Por isso sempre temos que ter um senso crítico sobre o que lemos, e não acreditar cegamente.
    Bjs

  4. Franciele Débora disse:

    Senti uma forte emoção por Li, uma historia de superação cheia de emoções. Gostei da premissa do livro que retrata o comunismo e capitalismo, algo que vemos muito aqui no BR. Gostaria muito de ver o filme, mas quero ler o livro primeiro.
    Ah, e essa dança maravilhosa? Estou sem palavras pra descrever o que senti ao ver os vídeos do espetáculo do balé!
    Amei sua resenha detalhada que me fez senti dentro da historia.
    Beijos.

    • Jordana Barbosa disse:

      Franciele eu sempre fico na duvida se vejo o filme ou leio o livro primeiro, o legal de ver o filme é que vc já tem um rosto pros personagens hehehe

  5. André dos Santos disse:

    Realmente poucos livros contam a história do comunismo nos países asiáticos e menos ainda chegam traduzidos por aqui, o que é uma pena por não podermos saber e conhecer mais sobre como foi essa realidade para os moradores.
    Dá pra sentir o quanto o regime foi cruel até pela forma de selecionar as crianças para serem os artistas de Madame Mao, mas o personagem conseguiu superar tudo isso e fazer sucesso, crescer, aprender e se desenvolver enfrentando cada um dos obstáculos, uma pena os detalhes serem mais sucintos na fase adulta, acredito que com poucas páginas a mais isso poderia deixar o livro ainda melhor, um livro inspirador, não conhecia e pela resenha fiquei curioso, vou assistir o filme e se gostar ler a obra.

    • Jordana Barbosa disse:

      Acho que vale muito a pena André, pelo menos para matar a curiosidade sobre formas do governo chinês (uma coisa que me desperta muito a vontade de ler)

  6. Nara Sabrina disse:

    A China atualmente é um país tao bem desenvolvido que eu não imaginava que eles passaram por esse regime, Mao ate então era totalmente desconhecido para mim. O livro deve ser carregado de muitas lições de vida, de sofrimento e de superações, tenho certeza que quando ler esse livro irei me emocionar muito

    • Jordana Barbosa disse:

      Nara uma das belezas dos livros é essa possibilidade de nos ensinar tanto, eu agora tenho algum conhecimento sobre a China e acredito que cada livro traz uma informação nova 😉

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