Tomo Conta do Mundo, Conficções de uma Psicanalista – Diana Corso

Quando uma autora já no subtitulo consegue encaixar tão inteligentemente um neologismo, o livro tem o dobro de chances de ser bom. Nesse caso, Diana conseguiu superar todas as expectativas em relação à isso. As cronicas contidas nesse livro são – em sua maioria – adaptações das crônicas que ela escrevia para o jornal, e todas tem uma característica em comum: a inteligência e sagacidade de Diana com as palavras, e para além, com os conteúdos.

Diana introduz o livro com uma apresentação, uma advertência e com posologia. Isso significa que o livro, ao ser apresentado ao leitor nos adverte ter sido criado a partir das mais diversas histórias: a da psicanálise, a da escuta psicanalítica de Diana e de personagens fictícios. Quanto à posologia, Diana nos deixa livre para ler as crônicas em sequencia ou aleatoriamente, sendo todas muito divertidas e gostosas de ler. Com escrita fácil e linguagem acessível, somos transportados diretamente para cada história, que possui um corte preciso a cada final, como nos sugere o tempo lógico lacaniano.

Como sou psicanalista, tenho o sigilo como premissa inquestionável. De qualquer forma, no caso de ficar apropriando-me de histórias alheias, cabe pedir licença e preservar o anonimato das fontes. Por isso, todas as histórias aqui contadas têm o beneplácito dos envolvidos, pelo menos quando se trata de conhecidos. Quando são figuras públicas, personagens ficcionais ou anônimos, a apropriação é liberada.

Vamos falar sobre o neologismo, a palavra conficção me chama bastante atenção, talvez porque eu acredite que um livro de ficção sempre tem algo de confessional, ou porque toda confissão leva consigo uma ficção particular. Bom, Diana faz isso com maestria, pois, em cada crônica dá pra imaginar quais situações ocorreram a ela, quais foram de sua prática e quais são totalmente inventadas. O livro tem uma pegada leve, e possui textos de diversos assuntos. Tem textos falando sobre mães, sobre formigas, sobre o que é ser uma mulher, sobre narcisismo… Sobre ser humano.

Tentar parecer eternamente jovem é o mesmo que acreditar na ilusão de zerar o hodômetro. A ideia tentadora é começar de novo, com tanta disposição como antes, mas com a estabilidade da maturidade. Isso é falso não somente porque o resultado é pouco convincente, quando não caricatural, mas porque as marcas do sofrido não saem com bisturi.

    Minha opinião

Me esforcei bastante pra não elogiar o livro demais na resenha, falhei né?! De fato o livro foi um dos melhores de crônicas que eu já li. Digo isso por que não cai na formalidade teórica, aliás, não tem nada de teórico explicitamente, e nem fica naquele clichê sem conteúdo, em achismos desnecessários. Diana, de maneira muito leve e divertida traz temas recorrentes ao cotidiano de todos nós, e mais ainda sobre temas que nós, mulheres conhecemos bem. Fora isso, ela inicia o livro citando Clarice Lispector, já me ganhou na primeira crônica.

“Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo”, diz Clarice Lispector. E segue: “No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias. Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas.

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Essa citação acima justifica todas as formiguinhas na capa do livro, que parece um bordado, justamente por todas as costuras que se dão nas histórias das pessoas, as confessionais e as ficcionais. Ah! No final, tem um ensaio maravilhoso sobre Virgínia Woolf… Enfim, quer ler um livro gostoso, fácil, divertido e que mesmo assim traz certas reflexões? Tomo conta do mundo é o livro pra você! Assim como foi pra mim.

Crianças são apaixonantes, cheias de frases, gestos surpreendentes, amolecem a alma, despertam ternura, conectam qualquer um com sua pieguice interior. Crianças são insuportáveis, inconvenientes, barulhentas, sujas e cada vez mais espaçosas. Crianças são anjos e monstros.

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Título: Tomo Conta do Mundo, Conficções de uma Psicanalista (Original)
Autor: Diana Corso
Editora: Arquipélago Editorial
Número de páginas: 271
Lançamento: 2014
Comprar (Amazon – R$ 32,90)
 
 
 
 

Isabela Tavares

Leitora desde muito cedo, carrego comigo as inspirações de menina sonhadora com um quê de mulher que não acredita em tudo que lê. Prefiro romances pela possibilidade de me apaixonar por personagens densos e complexos.

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14 Discussion to this post

  1. Janaina silva disse:

    Oie,faz bastante tempo que não leio crônicas. Lia muito na época em que o meu pai comprava jornais… Mas em livros,não me lembro de ter lido.
    Pelo que entendi,ela faz uma junção entre fatos reais,e outros ” inventados” não é?
    E trata de questões que acontecem corriqueiramente com algumas pessoas..

    Confesso que achei o livro diferente. Mas leria por você ter nos contado que é divertido. 😉

  2. Lara Caroline disse:

    Oi Isabela, tudo bem?
    Apesar dos seus super elogios, fiquei com um pé atrás em relação ao livro, por causa deste título. Não gosto de Psicanálise e acho que não gostaria nem um pouco das crônicas da autora, mesmo sendo super bem escritas. Não sei se leria o livro, talvez quem sabe um dia.
    Beijos

  3. Franciele Débora disse:

    Nossa faz muito mais muito tempo que eu não leio uma crônica, hein. Mas apesar de que você gostou muito e elogiou muito o livro, não sei se eu vou ler porque não me chamou muita atenção, uma pena.
    Mas a resenha esta ótima, beijos.

  4. André dos Santos disse:

    Que bacana!
    Um livro curto e por isso mesmo ainda melhor de ler, a autora foi realmente muito inteligente e dá pra sentir que é um daqueles livros pensados com muito carinho e amor, por isso sai tão bom.
    Sou fã de crônicas e saber que todas são muito bem escritas e ainda dá pra “brincar” tentando adivinhar o que foi inspirado na realidade,e o que não, contando com finais adequados, coerentes, o talento com as palavras é ainda mais divertido, um livro que eu não conhecia e que promete ser uma leitura muito boa.

  5. Pamela Liu disse:

    OI Isabela.
    Faz tempo que não leio um livro de crônicas. Acho a leitura bem prazerosa e divertida.
    Esse livro parece ser ótimo para sair de uma ressaca literária. Podendo ler várias crônicas seguidas, ou só uma, dependendo do humor.
    Adorei o último quote! É a descrição perfeita sobre as crianças rs
    Achei a capa bem bonita.
    Espero ter a oportunidade de ler esse livro.
    Bjs

  6. Nara Sabrina disse:

    Sinceramente por incrível que pareça não me recordo de já ter lido um livro de crônicas, acho que poderia ser uma leitura interessante e bem reflexiva, mas infelizmente acho que não o leria, não gosto de psicanálise, portanto acho que não faz o meu estilo, mas nunca diga nunca rs quem sabe um dia eu possa dar uma chance

  7. Yana Sofia disse:

    Gostei bastante da resenha <3 O livro é lindo e a foto de vocês realçou ainda mais a beleza dele. Bom, eu nunca li um livro com temática parecida com esse, mas como sou curiosa com absolutamente tudo acho que é um livro que se parece comigo. Já li livros de crônicas antes, e adoro por causa da mania de discutir o cotidiano e nos aproximar da escrita de forma tão leve. Com certeza, esse tá na lista!

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