As boas mulheres da China, Xinran

Xinran é uma jornalista chinesa e tem um programa na radio nacional que se chama Palavras na brisa noturna. É o final da Revolução Cultural Chinesa e inicio da politica de reabertura da China, apesar da nova politica, ainda e proibido pensar, fazer ou falar sobre muitas coisas. Ser jornalista nessa época significava ignorar os desejos e fazer a todo tempo propagando do Partido, era obedecer ordens e se comportar como as autoridades determinavam. Um livro de jornalismo literário contando sobre ser mulher na China, mas nos enxergamos em cada palavra dessas mulheres orientais.

As boas mulheres da China foi escrito a partir de relatos que Xinran escutou enquanto apresentava seu programa, mulheres que passaram por alguns regimes políticos, mulheres que seguiam os costumes, mulheres modernas. Historias que por momentos eram felizes, mas na maioria dos casos deixa muito claro que as mulheres são apenas moedas de troca e só tem valor de acordo com a sua utilidade, literalmente falando. São doze relatos no total de mulheres totalmente diferentes em si, mas que se olharmos bem, essas mulheres somos nós, donas de casa, estudantes, mães, esposas, namoradas, solitárias, operárias, enfermeiras, jornalistas, prisioneiras….

Havia uma garota em perigo e, ainda assim,ir em socorro dela foi visto como “exaurir as pessoas e drenar o Tesouro”. Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na China?

Xiran apesar de mergulhar na história de vida dessas mulheres e nos fazer sentir e nos aproximar delas, estabelece uma distância bem segura de sua vida pessoal e o que ela faz, com o que ela trabalha. De sua vida pessoal sabemos pouco até ela ser confrontada por uma de suas entrevistadas. Na China não há diferenças na divisão social do trabalho (o que é uma das reivindicações dos feminismos brancos), então há de se pensar que as mulheres são tratadas como pessoas. Porém, a autora nos mostra que o trabalho dignifica, mas humilha a mulher, não é o trabalho que diz que uma mulher é uma pessoa e deve ser tratada como tal.

A violência sexual é o tema mais recorrente durante todo o livro, é incrível (da pior forma possível) como os homens se aproximam de aberrações infernais e de como as mulheres são tão vulneráveis aos ataques bestiais. Desde crianças à idosas, todas elas e todas nós estamos em perigo constante, sempre ameaçadas pelo poder que os homens detêm. E Xinran nos mostra como nada muda apesar do século virar, dos regimes se erguerem e caírem, dos líderes mudarem.

Lembro de pensar que, se houvesse outra vida, eu nao queria nascer mulher.

Mês passado fiz uma resenha sobre Li Cuxin, o bailarino de Mao e quando li As boas mulheres da China o choque foi imenso. O primeiro é a biografia de um homem que cresceu durante a Revolução Cultural, se tornou bailarino famoso e desertou, no segundo é a histórias de várias mulheres que cresceram, nasceram, casaram, tiveram filhas e filhos e até morreram durante o mesmo período que Li e, #meusdeus!, quanta diferença. Torna-se óbvio que as coisas afetam homens e mulheres de formas diferentes, mais que isso, que às mulheres geralmente fica destinado a crueldade e o tratamento desumano. Xinran, por exemplo, é três anos mais velha que Cunxin, e eles tem experiências totalmente diferentes crescendo e vivendo na mesma época e no mesmo no mesmo país.

Um livro carregado de sensibilidade, narrado por várias vozes femininas, um retrato da realidade humana vivida exclusivamente pelas mulheres. Estas consideradas objetos de poder dos homens, moeda de troca dos pais, peça de uma maquina dos patrões e empregadas dos maridos. Uma visão que nos faz abrir os olhos sobre o que são e como são tratadas as mulheres orientais e porque não até nós, as ocidentais.

Há quem diga que o tempo cura tudo. A mim não curou.


Título:As boas mulheres da China (The good women of China)
Autor: Xinran
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 252
Lançamento: 2007
Comprar (Amazon – R$ 14,90)

 
 
 
 

Jordana Barbosa

Jornalista que odeia jornais. Troco amores por torresmo. Meu nome significa água que corre e é perto da água que encontro paz.

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4 Discussion to this post

  1. Janaina silva disse:

    Olá,realmente a realidade das mulheres é sempre mais cruel,que a dos homens.
    E até mesmo nos dias atuais,já li que as chinesas não tem tanta liberdade quanto se imagina.
    Não se compara ao período descrito no livro,mas os preconceitos ainda estão ali,enraizados.
    Não li o livro,mas sei que deve ser muito triste e revoltante ler os relatos dessas mulheres.
    E eu gostei de conhecer um pouco sobre esse livro.

    Desde que nascemos,já sabemos que o peso de tudo ,sempre cai muito mais em nossas cabeças.
    Triste realidade! 🙁

    • Jordana Barbosa disse:

      Janaína é muito triste mesmo ler os relatos. Uma das coisas muito pesadas é que as mulheres não são oprimidas, torturadas e massacradas por viverem em regimes autoritários ou democráticos, mas apenas por serem/sermos mulheres. Leia e me conte o que achou.

  2. Yana Sofia disse:

    Esse livro! Lembro que li parte dele quando tinha uns 15 anos e fiquei muito interessada com tudo o que estava sendo falado, só que ao mesmo tempo parecia que meu coração ia se desintegrar se lesse mais kkkk Daí conclui que era uma leitura muito tensa para minha idade naquele momento e prometi a mim mesma voltar depois, e até hoje não peguei para ler de novo! Com certeza essa resenha reavivou essa “promessa”, com certeza vou comprar na próxima oportunidade para colocar essa maravilhosa leitura em dia!

    • Jordana Barbosa disse:

      Yana, eu acho que aos 15 anos é muito pesada, eu aos 30 tive meu coração desintegrados, como vc disse. É lindo, é forte, é triste. Teve horas que eu precisei parar a leitura pra não afundar junto com as mulheres do livro.

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