País sem chapéu, Dany Laferrière

Quando você encontra livros espetaculares escritos por escritores maravilhosos, você obrigatoriamente precisa falar do autor. Dany Laferriére é negro, haitiano. De quantos autores haitianos você já ouvir falar? Foi batizado com o mesmo nome do pai, Windsor Klébert Laferrière. O pai de Dany era um politico importante e foi exilado forçosamente quando Dany tinha seis anos e por medo da abrangência da perseguição politica Dany é afastado dos pais e vai viver no interior com a avó. Aos 19 anos ele se torna jornalista e o mesmo regime o persegue novamente a ponto de ele ter o mesmo destino que o pai.

Depois de 20 anos no exílio na América do Norte, ele então retorna ao Haiti e vai nos contar de um jeito peculiar como é andar novamente em Porto Príncipe, cidade onde nasceu, mas que não parece ser mais sua casa. Laferrière é um dos responsáveis por renovar a literatura haitiana e até agora apenas País sem chapéu foi traduzido para o português: #traduzamDanyLaferrière. O autor tem um estilo híbrido de escrita, não está preso em nenhum estilo fechado, ele afirma que o que faz é autobiografia americana. Mas também faz romances, roteiros de cinema e se arrisca até na direção de alguns filmes. Ele já ganhou quatro prêmios internacionais por suas obras.

País sem chapéu é um eterno caminhar dentro de uma cultura. Os haitianos (não quero generalizar) acreditam em seus deuses, alguns praticam o vodu e essa é uma religião muito forte que explica o mundo e estrutura a sociedade, igualzinho ao cristianismo. Esse país sem chapéu a que Dany se refere é o país dos mortos, onde ninguém usa chapéu. É o trânsito entre o reino dos mortos, o reino dos deuses do vodu, o país sonhado e o país real, as sessões do livro são marcadas por país real e país sonhado. Mas será que essa marcação deixa bem explicito o que é real e o que o não é?

As pessoas morreram – conclui ela -, e se recusam a deixa-las descansar em paz. Antigamente, o cemitério era o único lugar seguro no Haiti. Agora a gente se pergunta se vale a pena morrer neste país.

Este livro faz parte de uma série de dez que o próprio autor denominou de “uma autobiografia americana”. Não existe uma ordem para orientar os interessados na leitura, o primeiro livro da série, se pensarmos em uma ordem cronológica é L’odeur du café que é sobre sua infância e o que encerra é País sem chapéu. E é só neste livro que Dany revela sua identidade, nos outros ele usa um pseudônimo (apelido dado por sua avó) para o protagonista.

Minha opinião

Dany mistura com sua escrita traços da oralidade, coloquialidade do inglês, termos em créole, mais um dos motivos para se afirmar que ele tem um estilo próprio de escrita e lança mão de um plurilinguismo que faz uma quebra e um outro uso da língua francesa. Mas além das técnicas, estilos e inovações, País sem chapéu é escrito com o coração. Parte de uma experiência profundamente interna, uma relação com a casa, com a família, com as ruas, é como enxergar um lugar que nunca se viu pelos olhos de outra pessoa, pelos olhos de um apaixonado em constantes dilemas.

É uma saga pelas ruas de Porto Príncipe e a cada passo que Dany dá ele nos apresenta quadros inusitados, a confusão que os mortos causam no país real, as diferenças de idade, as relações de amor dele e da mãe, o racismo tão presente e forte no Haiti. Ele fala das memórias de infância, da vó, da adolescência, dos amigos, das desavenças e dos amores, nos conta como os Estados Unidos invadem e transformam de maneira dolorosa a vida haitiana. Mostra a importância dos velhos, da sabedoria e das samaúmas, árvores que representam e são locais de memória.

É o corpo que fala primeiro, como amigo ou inimigo. Às vezes, ele também pode estar carregado de desejos contidos. Nesses momentos, dizemos que está explodindo de sentido. O corpo pode sussurrar, gritar, urrar, cantar, sem pronunciar um único som. Pode até expressar o contrário do que as palavras dizem. Só se compreende verdadeiramente um homem quando se pode captar o que ele quer dizer antes mesmo que ela abra a boca.

Feito com uma sensibilidade impar, Dany nos toca a cada passo dado, a cada sonho contado. Ganhei esse livro de presente de um grande amigo, um dos melhores presentes que já ganhei. Este livro além de falar sobre memória, lembrança e vida, tornou-se um lugar de memória para mim, uma forma de me ligar com meu país real e o sonhado. Descobri a maneira de reconhecer os vivos.


Título: País sem chapéu (Pys sans chapeau)
Autor: Dany Laferrière
Editora: 34
Número de páginas: 240
Lançamento: 2011
Comprar (Amazon – R$ 36,99)
 
 

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE OUTUBRO *

Jordana Barbosa

Jornalista que odeia jornais. Troco amores por torresmo. Meu nome significa água que corre e é perto da água que encontro paz.

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16 Discussion to this post

  1. Lili Aragão disse:

    Oi Jordana, que legal é ganhar um presente que se torna tão especial e bom de ler, amo ganhar livros 🙂
    Ainda não tinha ouvido falar da obra ou do autor, mas achei a ideia bem interessante por nos apresentar mais sobre esse país que conheço tão pouco, não sabia dá força do vodu nele por exemplo e deve ser bom de acompanhar isso pelos olhos de uma pessoa que depois de um exílio retorna pra o lugar onde nasceu e viveu boa parte da vida, e imagino que a experiência dele tenha sido maravilhosa.

    • Jordana Barbosa disse:

      Livros são os melhores presentes sempre =) esse livro é todo de descobertas. Saber sobre o Haiti além das notícias de terremotos pra mim foi transformador.

  2. Janaina silva disse:

    Olá,que bom que o autor não perdeu a sua essência. Não esqueceu de onde veio e de suas raízes.
    E você tem razão!
    Ainda não conhecia nenhum autor haitiano.
    Pelos trechos do livro que nos mostrou,ele escreve quase que poeticamente.
    E gostei disso.

    É sempre muito bom conhecer livros e histórias diferentes ! 😉

    • Jordana Barbosa disse:

      Janaína ele é um poeta da prosa, uma coisa que me conquista bastante.
      Vale a pena ler ele viu

  3. Alison de Jesus disse:

    Olá, esse livro se destaca por entregar uma trama plurissignificativa e original, sem contar que introduz o leitor na cultura densa de outro país com todos os seus contrastes e costumes, fazendo uma referência direta com o ufanismo diante da nação do autor. Beijos.

    • Jordana Barbosa disse:

      ère Olha eu posso te garantir que Laferrière não é ufanista, eu acho que eu que sou rsrsrs ele mostra os dilemas, problemas e contradições do país. Mas lê e me diga quem é o ufanista, eu ou ele.

  4. Sempre bacana a gente ter a oportunidade de ler livros e de conferir a escrita de autores diferentes e com temáticas diversificadas, creio que este é um dos poderes da leitura, agregam sempre conhecimento e ensinamentos. Adorei conhecer o livro, realmente uma proposta única, ainda mais se tratando de um haitiano que enfrento bastante coisas e a forma de suas crenças,

    • Jordana Barbosa disse:

      É muito rico poder conhecer outros autores, outros países, outras culturas e, os livros nos proporcionam isso

  5. Depois de ler seus diversos comentários positivos referentes a este livro em sua resenha, simplesmente não tive como não adicionar este livro em minha lista de leituras, que bom que é um livro com uma história que toca o leitor, pretendo ler País sem Chapéu.

    • Jordana Barbosa disse:

      Leia sim e se der me conte depois o que achou, ele me tocou muitíssimo e espero que toque vc tbm

  6. Jordana!
    Ando na vibe das autobiografias, em dois meses já li quatro e já acrescentei esse na minha lista de desejados, primeiro por ser um autor haitiano e nunca li nenhum autor do país, depois porque gostei da forma mais culta como escreve e deve ser uma leitura bem rica de conhecimento quanto a língua e a cltura do país.
    Bem interessada em poder fazer a leitura.
    Um final de semana alegre e feliz!
    “Não há nada que faça um homem suspeitar tanto como o fato de saber pouco.” (Francis Bacon)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    • Jordana Barbosa disse:

      Esse livro vale muito a pena de ler. É um mergulho na cultura haitiana e um mergulho de uma forma diferente, pelo mundo dos mortos rsrsrs

  7. Giulianna Santicioli disse:

    Ainda não conhecia esse autor, realmente não há muitos autores haitianos conhecidos, apesar de biografia não ser meu gênero favorito esse livro chamou a minha atenção por se passar em uma cultura e região totalmente diferentes do que estamos acostumados, uma pena que até agora só tenha sido publicado um livro dele.
    Beijos!

    • Jordana Barbosa disse:

      Eu torço pra publicarem mais e olha, é biografia, mas é diferente de todas que vc já viu, te garanto

  8. Gabriela Souza disse:

    Oi! Adorei saber que o autor é haitiano. Adoro ver essa diversidade ganhando espaço! Fiquei super curiosa para ler o livro e conhecer mais da cultura que ele explora na obra! Que legal saber que ele já ate ganhou prêmios. Beijoss

  9. Patricia Moreira disse:

    Oi Jordana 🙂
    Não conhecia esse livro! E o que mais me deixou impressionada é que o lançamento do mesmo foi em 2011. Me pergunto por onde andava…. haha.
    Pela sua resenha eu sinto que vou gostar muito do livro. Gosto muito de livros que contam a história de vida do autor ou acontecimentos importante da sua vida misturado com a cultura do seu país. Me lembrou E Se Obama Fosse Africano? do Mia Couto. Uma outra leitura que vale a pena.
    Obrigada pela recomendação ^^

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