David Levithan nos apresenta “A”. Um ser que não sabe como e nem porque mas todos os dias é arrancado de seu corpo e acorda em outro. Um novo corpo. Novas lembranças. Nova vida. Tem que se adaptar rapidamente ao novo hospedeiro para manter as aparências e passar o dia desapercebido. Já está acostumado com essa rotina de ter uma nova identidade, seja de homem, mulher, rico ou pobre.

O corpo é a coisa mais fácil à qual se ajustar quando se está acostumado a acordar em um corpo novo todas as manhãs. É a vida, o contexto do corpo, que pode ser díficil de entender.

Ao trocar de corpo “A” assume que não deve interferir na vida de seu novo casco. Não deve mudar o curso e nem criar laços pois sabe que amanhã não vai ser somente um novo dia. Será, literalmente, uma nova vida.

Chegando perto dos 6 mil dias de vida acordou mais uma vez diferente. Enquanto Justin adormece no background de sua mente “A” está no controle de seu corpo. Ao começar a aprender sobre o contexto da vida de Justin nosso(a) protagonista conhece sua namorada. Rhiannon. Tímida, ansiosa e se escondendo atrás do cabelo. Tão bonita quanto insegura.

“A” percebe que Justin não se importa com ela e que, mesmo sendo mal tratada, está muito apaixonada e, intrigado pela situação da garota, “A” sente necessidade de lhe proporcionar um belo dia. Quebrando assim a sua regra de não interferir. É assim que começa a história que promete dar um ótimo filme. 😉

Todo Dia - David Levithan text

O momento em que você se apaixona parece carregar séculos, gerações atrás de si – tudo isso se reorganizando para que essa interseção precisa e incomum possa acontecer. Em seu coração, em seus ossos, por mais bobo que saiba que é, você sente que tudo levou a isso, que todas as flechas secretas estavam apontando para este lugar, que o universo e o próprio tempo construíram isso muito tempo atrás, e agora você acaba de perceber que chegou ao local onde sempre deveria ter estado.

Minha opinião

Depois de um hiato, volto a escrever no blog. E volto com mais uma história dos famigerados protagonistas de 16 anos. Tantos desses já me decepcionaram enquanto outros me surpreenderam. Não importa. Ler não é um exercício de adivinhação, portanto chances terão que ser dadas para novas histórias e, só assim, novas surpresas nascerão.

Não sou um leitor ávido de Young Adults, mas a premissa que o autor levanta na sinopse do livro é que me pegou. A ideia de um elemento fantástico em meio a vida mundana sempre me atraiu. David Levithan trás em “Todo Dia” um personagem diferente. Um ser, entidade, alma, que não possui padrão ou classificação para qualquer gênero. Algo que, me parece, vem do próprio autor para nos fazer entender um pouco do que se passa no outro lado do preconceito. Nos traz uma ideia de que “A” é um hóspede para qualquer casa.

O que me pegou…

A história principal é interessante. A relação entre “A” e Rhiannon é pura. Conheceram-se pela raiz que independe se você é homem, mulher, velho, jovem, desdentado ou abastado.

Embora a premissa do livro e a sinopse me convenceram a ler o livro, acho que, sinceramente, não foi o romance entre “A” e Rhiannon que reteve minha atenção. O que me fisgou, de fato, foram as experiências descritas sobre as vidas de quem “A” se apoderou. Pessoas normais, raivosas, estudiosas, usuárias de drogas e a pessoa que trouxe o meu coração para o livro.

A mente de Kelsea Cook é um lugar escuro. Mesmo antes de abrir os olhos, sei disso. A mente dela é inquieta: palavras, pensamentos e impulsos colidindo uns contra os outros sem parar. Meus próprios pensamentos tentando afirmar-se em meio ao barulho. O corpo começando a suar. Tento permanecer calmo, mas o corpo conspira contra isso, tenta me afogar na distorção.

Esse foi o dia em que acordou num corpo de uma pessoa com depressão. Com um texto hiper sensível, o capítulo arranca de nós alguns conceitos e verdades sobre coisas que não conhecemos ou entendemos. Existe, na sua escrita, uma capacidade de nos fazer exercer nossa empatia ao máximo. Difícil de respirar.

A escrita super simples e os capítulos curtos me levaram a sentir conectado. Perto.

Assim como quando li Vivian Contra O Apocalipse eu não esperava muito do livro. Mas isso é que torna tudo interessante. Esse é um belo exemplo de que preconceitos e concepções erradas te levam cada vez para mais longe das pessoas, histórias, situações e surpresas boas.

A história de David Levithan continua em outro livro. Na verdade, é a mesma história contada pelo ponto de vista de Rhiannon. O livro se chama “Outro Dia”. Lerei e se a qualidade for como em “Todo Dia” com certeza voltarei para contar.

 

Título: Todo Dia
Autor: David Levithan
Editora: Galera Record (Grupo Editorial Record)
Número de páginas: 280
Lançamento: 2013
Comprar (Amazon – R$ 22,10 )

 

 

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE OUTUBRO DE 2017 *

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18 Discussion to this post

  1. Janaina silva disse:

    Daniel, já li esse livro e assim como você,o que me agradou na trama foi a personalidade de cada personagem que “A” se apossou em cada amanhecer .
    O romance foi como uma ponte para entender o que acontecia.
    Gostei da forma que o autor nos faz perceber que as diferenças são naturais e a diversidade não deve ser vista com preconceitos.
    Li rapidamente. E gostei muito!

    • Daniel Marques disse:

      Pois é. Senti falta de saber o que realmente era “A”. Achei que ia explicar, mas enfim, não importou tanto assim. 🙂

  2. Lili Aragão disse:

    Oi Daniel, é legal quando somos surpreendidos por uma história e ela nos agrada. Ainda não conhecia esse livro e achei a premissa interessante, e fiquei curiosa pra explicação em torno de A, mas receosa com a personalidade de Rhiannon que é mal tratada por Justin mas ainda assim está apaixonada por ele. No geral a resenha positiva me agradou e apesar de não ser uma leitura que faria agora, não tenho lido muitos juvenis, é um livro que posso considerar ler futuramente 😉

    • Daniel Marques disse:

      Foi exatamente a premissa que me vendeu o livro. A vibe dele é bem tranquila. Considere mesmo ler, por mais juvenil que seja algumas discussões dentro dele são ótimas.

  3. Giulianna Santicioli disse:

    Adoro os livros do David Levithan, infelizmente ainda não tive a oportunidade de ler Todo Dia, mas é um livro que sempre que vejo por aí, só consigo pensar em como sou idiota por ainda não ter lido, gosto bastante da escrita do autor por ele conseguir se adaptar as diferentes personalidades de cada personagem e mesmo assim nos fazer ficar conectados com eles e também a forma que ele faz a gente enxergar as pessoas que são diferentes de nós, mostrando que cada passa por problemas pessoais e como todos somos únicos de certa forma, enfim, não vejo a hora de finalmente poder ler esse livro.
    Beijos!

    • Daniel Marques disse:

      Disse tudo. A escrita dele é muito ligada a nos conectar com o outro. Leia, é rapidinho. 🙂

  4. Michelli Prado disse:

    Este livro já esta a algum tempo na minha estante, mas sempre acabo deixando para depois…É um tipo de historia que chama nossa atenção,por nunca ter lido nada aprecido, mas quero ler bem nas férias da faculdade para compreender bem a trama. Tenho ele como meta ainda para este ano!

    • Daniel Marques disse:

      Haha! Eu também tenho um monte de livros que estão na estante e nunca li. Bom, quando chegar as férias, leia e me conte o que achou.

  5. Alison de Jesus disse:

    Olá, já ouvi muitos elogios sobre essa obra, e a premissa original me chama atenção. É interessante como o autor consegue abordar de forma leve temas como depressão, mas sem tirar o foco da história. Não sabia que há continuação, porém espero que a mesma seja realmente necessária. Beijos.

    • Daniel Marques disse:

      Olá Alison. Não há continuação mesmo. O que existe é um outro livro contando essa mesma história no ponto de vista da Rhiannon (chama-se “Outro dia”) e conversas para adaptações no cinema. 🙂

  6. Gabriela Souza disse:

    Oi! Nem sei o que dizer sobre esse livro. Acho que todos deveriam ler ele pelo menos uma vez na vida, já que empatia é algo que poucos possuem hoje em dia. Fiquei super curiosa para saber tudo o que o personagem vivenciou no corpo de tantas pessoas. Deve ter sido uma experiencia incrível, da mesma forma que deve ser para quem ler o livro. Beijos

    • Daniel Marques disse:

      Hey Gabi. Concordo contigo, empatia é a palavra chave desse livro. Todo mundo tem problemas e se colocar no lugar de outra pessoa é um exercício árduo mas necessário. Continuemos então…haha

  7. Ainda não li nem um livro do autor David Levithan, lendo sua resenha, achei bem diferente a história deste livro, e acabei ficando curiosa para ler Todo Dia, eu acho que na história, como você, não seria o romance que manteria minha atenção na história, mas sim sobre a história de ”A” e sobre as vidas de quem ”A” se apoderou.
    Pretendo ler este livro futuramente.

  8. Daniel!
    Achei o enredo bem diferenciado, você poder estar em um corpo a cada dia e acabar se apaixonando por alguém que sabe que não verá novamente e tentar descobrir meios para reencontrá-la, é inusitado.
    Minha dúvida fica em apenas saber se é explicado porque o ou a protagonista fica mudando de corpo diariamente….
    Desejo um maravilhoso e florido final de semana!
    “Para saber uma verdade qualquer a meu respeito, é preciso que eu passe pelo outro.” (Jean-Paul Sartre)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    • Daniel Marques disse:

      Oi Rudy. Bom, eu fiquei esperando uma hora em que ele ia descobrir o que causava isso. Mas em certo ponto do livro eu percebi que não era esse tipo de história. Não é sobre o elemento fantástico e sim sobre as pessoas. Enfim, mesmo não aprofundando em explicações fica aqui minha recomendação.

  9. Patricia Moreira disse:

    Oi Daniel 🙂
    Eu sempre achei a proposta desse livro bem diferente e interessante. Gosto do fato dessa mudança de corpos porque me leva a pensar que se por acaso estivesse na pele da Rhiannon, por exemplo, se eu conseguiria aceitar a pessoa de todas as formas possíveis.
    Não sei se você conhece, mas existe um filme coreano chamado “The Beauty Inside” que trata exatamente isso. Acho que você iria gostar.

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