Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur

Rupi Kaur é indiana radicada no Canadá. Ele começou a desenhar quando era criança ainda, mas a escrita é um pouco mais recente. Ela nasceu em 1992, sim ela é jovem e começou a escrever poemas aos 19 anos. Praticamente um prodígio. Ela quebra com a ideia de que poesia não poderia ser sobre traumas, abusos e, além disso, ela começou sua jornada na poesia postando no instagram pequenos poemas. Inspirada por feministas, ela tira suas histórias de outras autoras como Virginia Woolf, Anais Nin…

Além de poetisa, Rupi é performer e artista plástica. Ela causa controvérsias não apenas em suas poesias. Em 2015 ela publicou uma foto sua no instagram, sua roupa estava suja de sangue menstrual na foto, teve a foto deletada pela rede social duas vezes e com seu protesto frente a censura se tornou viral. Rupi com sua intensidade não apenas na escrita, mas também nas ilustrações, performances e falas conseguiu vender mais de um milhão de cópias em poucos meses e passou 40 semanas no topo do ranking dos livros mais vendidos nos Estados Unidos.

eu não fui embora porque
eu deixei de te amar
eu fui embora porque quanto mais
eu ficava menos
eu me amava

Homenageando a escrita punjabi (uma língua hindu), Rupi quase não usa pontuação nos poemas, e quando usa são apenas pontos finais além de abrir mão das letras maiúsculas. Seu livro foi dividido em quatro etapas pensando na superação de um grande trauma: “A dor“, “O Amor“, “A Ruptura” e “A Cura”. Só que não são traumas quaisquer, são traumas, dores, amores, rupturas e curas, exclusivamente, femininas.

uma filha não
deveria ter que
implorar ao pai
por um relacionamento

 

quando minha mãe abre a boca
para conversar durante o jantar
meu pai enfia a palavra silêncio
nos seus lábios e diz que ela
nunca deve falar com a boca cheia
foi assim que as mulheres da minha família
aprenderam a viver com a boca fechada

    Minha opinião

Cada página do livro Outros jeitos de usar a boca é uma faca, um espinho que entra na sua carne, é uma dor que você e eu já sentimos ou sabemos muito bem que sentiremos um dia. Rupi consegue explicar nossa dor, nosso medo com palavras, ela consegue captar as emoções que passam por todas nós, todos os dias e nem sempre temos tempo pra pensar nelas ou simplesmente não sabemos como traduzi-las em palavras.

 

é a sua voz
que me despe

 

 

você passou noites o suficiente
com a masculinidade dele entre as pernas
para esquecer como é se sentir sozinha

Eu fui totalmente tocada pela escrita de Kaur, parecia que cada poema tinha sido feito pra mim, pra cada dor, trauma, violência, amor, cura e aceitação que eu passei, e eu nem gosto de poesia. Um amigo me disse que não tinha gostado do livro, que havia achado os poemas bobos e fiquei pensando como isso seria possível. E cheguei à conclusão que cada poema dela é um espinho na coluna, na costela e no coração, mas esse espinho só entra no corpo de uma mulher e de ninguém mais.


Título: Outros jeitos de usar a boca (Honey and milk)
Autor:Rupi Kaur
Editora:Planeta
Número de páginas:208 páginas
Lançamento:: 2017
Comprar (Amazon – R$ 15,90)
 
 
 
 

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE OUTUBRO*

Jordana Barbosa

Jornalista que odeia jornais. Troco amores por torresmo. Meu nome significa água que corre e é perto da água que encontro paz.

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8 Discussion to this post

  1. Janaina silva disse:

    Sempre gostei de poemas. E fiquei contente por conhecer esse livro.
    E mesmo sem ainda ter lido nenhum dos poemas,um trecho de um em especial me deixou tocada e até mesmo incomodada. Pois já senti exatamente o que a autora escreveu.
    E também me parece que a autora escreveu esse livro exclusivamente para as mulheres. Os sentimentos são bem “nossos”.

    Boa dica. Adorei!

  2. Lili Aragão disse:

    Oi Jordana, eu gosto de ler poemas esporádicos mas não sou de comprar livros de poesia, mas todas as resenhas que leio dessa obra são super positivas e as resenhas geralmente feitas por mulheres afirmam o que você disse, que a autora consegue transformar em palavras, momentos de dor, de superação, de momentos vividos por mulheres e que é fácil de se identificar ao longo dos poemas. Vi um vídeo no Youtube se não me engano de campanha desse livro onde artistas recitavam os poemas e achei bem legal. Curti a resenha e espero ter a oportunidade de ler o livro pois parece bem rico e super interessante 😉

  3. Alison de Jesus disse:

    Olá, Rupi com certeza é uma das autoras mais originais da contemporaneidade, pois além de lançar um novo modelo de poesia, ela consegue comover o leitor por meio da externação das situações inerentes ao público destinado, uma mistura de lamento e grito de protesto. Beijos.

  4. Gabriela Souza disse:

    Oi! concordo com vc sobre a parte de que somente as mulheres vão entender e se sentir tocadas pelo livro. Isso é bem triste. Vou procurar a autora no Instagram. Acho que vou gostar dos conteúdos dela. Também não sou fã de poesias, mas acho que vale a experiencia, já que o livro aborda a nossa realidade de todos os dias. Beijos

  5. Eu não conhecia este livro, e não costumo muito ler livros de poesias, porém gosto de ler poesias, então acabei me interessando em ler este livro, pois a autora coloca situações e emoções que passam por todas mulheres, parece ser poesias bem impactantes.

  6. Jordana!
    Adorei a montagem da foto com o livro, bem criativo.
    Euzinha amo livros de poesias e ando bem feliz por ver que estão voltado ao mercado, porque passaram um tempo sem serem editados.
    Adorei um livro com poemas voltados exclusivamente para o mundo feminino e achei maravilhoso que os temas foram divididos e podemos apreciar cada uma das poesias, lindo mesmo!
    Desejo um maravilhoso e florido final de semana!
    “Para saber uma verdade qualquer a meu respeito, é preciso que eu passe pelo outro.” (Jean-Paul Sartre)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

  7. Patricia Moreira disse:

    Oi Jordana!
    Conheço a Rupi há um bom tempo, mas acredita que só lendo sua resenha agora é que eu descobri que ela é novinha assim? hahaha eu jurava que ela tinha +30.
    Eu ainda não tive oportunidade de ler esse livro porque to esperando a versão em inglês abaixar o preço. Pode parecer bobagem, mas os poemas dela em inglês tiveram mais impacto em mim do que suas versões em português.
    Fico bem feliz que ela tá sendo mais conhecida por aqui. Quem sabe dá pra sonhar com uma visita dela na Bienal né?

    Bjs

  8. Michelli Prado disse:

    Ainda não conhecia o livro, e confesso que não tenho muito o hábito de ler poesias, e creio que isso é por falta de hábito mesmo, pois tua resenha é a prova de como uma poesia pode ser tão impactante, assim como um livro. Parabéns pela resenha!

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