Muito como um rei, Fábio Mandingo

Fábio Mandingo é um escritor baiano e tem uma importante representação na literatura afro-baiana. Escritor, historiador e professor da rede de ensino municipal, Fábio escreve e descreve a geografia da sua infância e adolescência, fala sobre amizade, dor, violência policial, bebedeiras, puberdade, sexo, amor de uma forma confessional e de testemunho. A relação com os lugares e as pessoas no livro nos deixam confusos em saber quem é Fábio entre os personagens, se é que ele está como personagem ali.

Não é um texto analítico, é um texto para sensações, para rir dos meninos e com os meninos de dez anos que fazem serenatas para as mulheres e dizem estarem apaixonados, para ficar perplexa pela descoberta da sexualidade nos meninos. Para torcer junto nos jogos de futebol e basquete. Pra visualizar como se vive, estuda, brinca e ama na periferia, coisa de profissional.

Muito como um rei é um livro de contos, mas parece um romance, eu não descobri onde começa e onde termina uma história, não separei os amores e os desejos. Deixei Fábio me contar sobre os adolescentes, me apresentar as feridas e alegrias deles, me fez sentir o ódio que os jovens sentiam da polícia, por exemplo, me fez rir das mães e imaginar cada uma delas. Mas também faz minha boca secar quando os moleques são espancados e torturados pela polícia. Fábio tem as ruas como um laboratório, experiências que ele sentiu e viveu e que por isso conhece tão bem a geografia e o perigo de ser um menino negro no Bahia.

O barulho das ondas do mar batendo nas pilastras. Força de bicuda de coturno na costela. Peso de mão de policia. Dureza de cassetete de madeira maciça. Sensações impossíveis de se transmitir. Narrativas impossíveis de se apreender

Fábio, no lançamento do livro, em 2015 disse: “Escrevo no intervalo do trabalho, quando não tem casa pra arrumar, quando não tem demanda de filho, quando não tem que treinar capoeira, quando não tem que fazer espelho de prova, corrigir prova, passar nota. A escrita é bastante tirana, ela se impõe a você”. Fábio se rende à prosa, mas também é poesia, mas também é vida explodindo através do papel.

Minha opinião

Sabe quando você se depara com uma vida besta, essa mesma, tipo a minha e a sua? Você vê essa besteira cotidiana passar todos os dias pelos seus olhos e pelos dedos, parece que nada acontece e que tudo é igual. Muito como um rei é isso, bem isso, essa bobagem que é viver, mas com outros olhos. Fábio não trata o cotidiano como uma coisa ordinária, como algo que não tem nada de especial.

_ Você nunca vai achar um homem na sua medida, preta, você é a ‘totalmente demais’ que a música fala.

Cada ferida na perna de um menino, cada abrir de olhos, cada caipirinha ao lado da mulher, cada jogo que o Jordan joga, tudo isso é especial, é lindo ou horrivelmente feio e doloroso. Tudo tem suas intenções e intensidades, suas espertezas, admirações e tristezas. Mas é preciso ler o livro sendo o jovem livre que pula o muro e vai beijar a namorada, que usa gírias e, imaginar aquele sotaque soteropolitano que transforma qualquer frase em uma canção especial. Como dizia Racionais MC’s: “Viver pouco como um rei ou muito como um Zé?”

Pra ouvir e pensar na vida.


Título: Muito como um rei
Autor: Fábio Mandingo
Editora: Círculo Contínuo
Número de páginas:
Lançamento: 2015
Comprar (Círculo Contínuo – R$ 23,00)
 
 
 
 

* A política do blog é de sempre fazer resenhas sinceras, independentemente de como o livro chegou até nós. A opinião relatada aqui veio da experiência literária da autora do post e não sofreu nenhuma influência que não tenha sido explicitada na resenha.

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE NOVEMBRO *

Jordana Barbosa

Jornalista que odeia jornais. Troco amores por torresmo. Meu nome significa água que corre e é perto da água que encontro paz.

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Discussion about this post

  1. Jordana!
    Importante conhecermos novos universos literários nacionais.
    Bom ver a rotina cotidiana de uma criança/adolescente, através e contos que se misturam e parecem um romance.
    Pode parecer uma leitura simples e corriqueira, mas sempre acredito que temos o prazer de conhecer mais um novo autor.
    Desejo um final de semana carregadinho de luz e paz!
    “ Inteligência não é não cometer erros, mas saber resolvê-los rapidamente.” (Bertolt Brecht)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA novembro 3 livros, 3 ganhadores, participem!

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