A partida do trem, Clarice Lispector

A partida do trem é o segundo conto do livro Onde Estivestes de Noite. A editora Rocco reuniu 17 contos escritos por Clarice Lispector e publicou nessa pequena e curta edição. Desde que tive o primeiro contato com o livro, venho relatando minhas experiências de leitura com os textos. Se você quiser conferir a minha resenha do primeiro conto “A procura de uma dignidade”, é só clicar aqui. Hoje, eu trouxe minhas impressões sobre A partida do trem. Vem conferir!

 

Onde Estivestes de Noite

“Ser já era um fazer.” (página 26)

Falando um pouco sobre a edição: ela contém 17 contos, todos escritos por Clarice Lispector e alguns foram publicados primeiramente em uma coluna semanal do Jornal do Brasil de 1967 a 1973, outros contos foram retirados de A via crucis do corpo (1974) ou retirados de romances e submetidos a modificações pela própria autora, visto que ela escrevia para sobreviver financeiramente.

 

A partida do trem

Este é um conto com características bastante existencialistas, ao meu ver. Temos nesse pequena história, duas mulheres com suas cargas emocionais distintas. Maria Rita Alavarenga Chagas Souza Melo e Angela Pralini. Dona Maria Rita é deixada por sua filha desinteressada e “public relations” no ponto de partida do trem. Assim que Maria Rita senta em seu assento, com o súbito espanto pela locomotiva se mover de um jeito inesperado, ela acaba conhecendo Angela. Uma mulher mais jovem com os seus trinta e sete anos, enquanto Maria tem seus setenta e sete.

“As rugas, enquanto ela rira, haviam tomado um sentido, pensou Angela.”

Angela apenas se oferece para trocar de lugar com a senhora, que logo recusa de imediato, mas acha aquela atitude muito amável. Maria Rita carrega o peso da idade e do medo de ser deixada sozinha para sempre, enquanto Pralini apenas quer fugir de seu amor sufocante e inteligente demais, Eduardo.

“Não me procure. Vou desaparecer de você para sempre. Te amo como nunca. Adeus. Tua Angela não foi mais tua porque você não quis.”

Ambas não trocam muitas palavras durante a viagem, mas compartilham sentimentos parecidos, de abandonar algumas raízes e medos. Angela vai para a casa dos tios a fim de ganhar peso, viver naturalmente e tomar banho de rio. Isso tudo na tentativa de fugir de Eduardo, um homem que só queria pensar e pensar. Nada mais que isso, apenas ostentar a sua perspicácia. Ele exigia uma inteligência que, para Angela, tinha gosto de urgência. Na verdade, ela era tudo perto de Eduardo, menos o que queria realmente ser.

Maria Rita era rejeitada por sua filha e, mesmo sendo rica e cheia de bens, se sentia esquecida por tudo e todos. Com isso, ela pega o rumo pra casa do filho que a ama e que não vai deixá-la sozinha. Assim que o trem parte, as perguntas, os anseios e medos das duas personagens surgem e elas embarcam em uma viagem infinita de lembranças e de constante epifania.

“Uma coisa unia a velha a Angela: ambas iam ser recebidas de braços abertos, mas uma não sabia isso da outra.”

A partida do trem possui a abordagem de diversos temas através das personagens. Entre eles: morte e vida; anseios e medos; desilusões dentro da instituição familiar e fora dela; a passagem do tempo; envelhecer e solidão. Uma personagem é mais velha que a outra, então são diversas temáticas que se juntam e que conduzem o leitor a reflexão. Talvez, perturbações que são características de certa idade são abordadas em sua individualidade. Uma característica muito peculiar do conto e que me chamou atenção foi o diálogo com o texto anterior (A procura de uma dignidade), tanto por ter alguns assuntos semelhantes, como também por fazer a menção a “uma velha apaixonada por Roberto Carlos”. Se você for ler A partida do trem separadamente, é provável que não vá notar, mas é bem interessante como a Clarice fez isso.

Não é o meu conto favorito da autora, mas é um dos que mais me fez reler e pensar em certas frases e parágrafos durante e depois da leitura.


 
Título: Onde estivestes de noite
Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Número de páginas: 96
Lançamento: 1999
Comprar (Amazon – R$ 11, 50)
 

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE NOVEMBRO *

Amanda Pires

Amanda desde 1997. Estudante de Letras – Inglês. Apaixonada por músicas tristes e sebos. Escrevo sobre o que leio, leio sobre o impossível.

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