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Felicidade por um fio

Violet Jones é uma mulher bem-sucedida, linda e que sempre está impecável. Ela tem por volta dos 35 anos e espera ansiosamente que seu namorado a peça em casamento. Violet é uma mulher negra e mais que qualquer outra área de sua vida, a aparência é sua prioridade, mas não é uma questão de futilidade. Ás mulheres negras foram dadas a armadilha de serem perfeitas do tempo todo para serem aceitas. Nappily ever after é um filme de comédia romântica que tem como pano de fundo o romance, mas a base dessa história é auto-aceitação da mulher negra.

Quando apareceu as primeiras propagandas deste filme eu fiquei empolgadíssima. Primeiro pensei que seria uma série. Quando a Netflix me “avisou” que Felicidade por um fio já estava disponível foi que descobri que era um filme. Porque fiquei tão empolgada? Porque esse filme foi feito para todas as mulheres negras que passaram por transição capilar. É um filme feito para todas as mulheres negras que aprenderam arduamente a se amar.

É muito fácil perceber como o racismo estrutura a sociedade e como determina modos de vida e de conduta – da população preta principalmente. Violet, vivida pela atriz Sanaa Lathan, é a mulher presa no círculo do auto ódio, a mãe dela foi ensinada a recusar toda a sua estética e assim ensinou para filha e Violet continua esse círculo com Zoe (Daria Johns), filha de um dos seus pares românticos. Esse auto ódio é ensinado desde os desenhos animados até nas escolas, passando pelas revistas, filmes e pela educação dentro de casa. A sociedade inteira diz que negros são feios, que o cabelo crespo não é aceitável, chega um momento em que nós acreditamos e ensinamos para nossos filhos.

Felicidade por um Fio, como foi traduzido no Brasil, mostra a quebra desse círculo. Apesar de ser um filme clichê, água com açúcar, ele é extremamente importante para pensar que a população preta preciso estar nos filmes clichês, água com açúcar, de faroeste, policial, drama e assim por diante. Isso faz parte da normatização do negro no mundo, não como mão-de-obra ou escravizado, mas como pessoa que ocupa um lugar no espaço, que vive amores, que sente dores, que se emociona e que almeja mudanças.

E a principal mudança não é apenas o visual da personagem principal, é, como ela lida com a auto-estima. Depois que ela raspa os cabelos, passa por um processo extremamente difícil, de se enxergar uma mulher feia, sem confiança, cabisbaixa. A medida em que ela toma consciência da sua beleza, vai se apropriando de auto-confiança e de poder, isso é empoderamento, é acreditar na sua própria beleza, é cuidar da sua auto-estima, é se livrar das amarras da opressão, neste caso machista e racista.

Eu poderia ficar horas e horas escrevendo sobre esse filme que me tocou muito porque é a minha história, a história das minhas amigas, a história das mulheres negras da minha família, até daquelas que ainda não conseguiram passar pela transição capilar. Porém vou parar por aqui, até porque não quero dar spoiler. AH! Já ia me esquecendo, esse filme foi baseado no romance da escritora norte-americana Trisha Thomas. Ela tem uma série de 4 livros e todos são sobre mulheres negras e algum tipo de amor. Nenhum dos livros ainda foi traduzido para o português, mas depois do sucesso de Felicidade por um fio, tenho certeza que em breve teremos notícias desses lançamentos.

*Imagens retiradas do site Netflix.

* ESTA RESENHA PARTICIPA DO TOP COMENTARISTA DO MÊS DE NOVEMBRO *

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4 Comments

  • Evandro

    Adorei a dica do filme. É muito importante tratar desse assunto, pois infelizmente vivemos uma época em que o racismo, antes velado, começou a pipocar aqui e ali. Seria ótimo se novela e todas as mídias mostrassem a beleza dos negros como são, com a beleza que lhe é própria. Vou assistir.

    27/11/2018 at 23:35 Reply
  • Patrini Viero Ferreira

    Eu vi esse filme na Netflix mas em função do fim de ano na faculdade ando bem parada com relação à esse quesito. No entanto, fiquei super emocionada com a delicadeza que o longa traz para um assunto tão importante e indispensável, nos dias de hoje e nos que ainda virão. Acho extremamente fundamental para a mulher, seja ela de toda e qualquer raça, a questão da aceitação e do amor-próprio. Somos criadas sob padrões rígidos de estética e comportamentos, e é apenas isso a que somos reduzidas: peças em uma vitrine, que estão ali para agradar e encher os olhos. Sempre que fugimos dessas normas convencionadas pelo social nos sentimos estranhas, feias e até mesmo erradas. É necessário esse empoderamento no sentido de amarmos cada parte de nós mesmas, vê-las como constituintes da beleza mágica que é a nossa essência. Apesar de ser clichê, o filme traz uma mensagem extremamente importante de ser repassada e absorvida.

    28/11/2018 at 18:24 Reply
  • Vitória Pantielly

    Oi Jordana,
    Já havia assistido ao trailer também, mas não sabia que estava disponível, quero assistir.
    Concordo completamente, precisamos dessa representatividade, até porque, isso é algo natural, e os filmes, independente do gênero, deveriam mostrar isso!!!
    Me emocionei no trailer, como é difícil a auto aceitação não é? Principalmente em uma época em que o racismo está estampado, infelizmente!!!
    Já coloquei aqui na lista, e fiquei mais feliz sobre os livros, esperam que traduzam.
    Beijos

    29/11/2018 at 14:59 Reply
  • Ana Carolina Venceslau dos Santos

    Gostei bastante desse filme por fugir dos padrões de comedias românticas. O filme abordas criticas sociais do inicio ao fim. A conotação da transição capilar é algo que se faz bastante necessário de ser debatido atualmente. A ideia de que um cabelo só é bom se for liso e loiro é algo que precisa ser desconstruída. Filme simplesmente incrivel.

    29/11/2018 at 21:11 Reply
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